Um Legado Cultural em Belo Horizonte
No coração do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, Cláudia Malta, atual diretora artística da Fundação Clóvis Salgado, guarda uma fotografia em preto e branco que encapsula sua história com a instituição. A imagem, que a retrata aos 15 anos, em uma clássica pose de balé, revela um vínculo profundo com o espaço que, neste sábado (14/3), celebra 55 anos de existência. Com mais de cinco décadas de histórias e memórias entrelaçadas, o Palácio se consolidou como um dos principais centros culturais da América do Sul.
As comemorações, que começam com um espetáculo de balé, a estreia de “Impulso” da Cia. de Dança Palácio das Artes (CDPA), prometem evocar as tradições que moldaram e transformaram a instituição ao longo dos anos. A montagem, que apresenta coreografias inéditas dos coreógrafos Alex Soares e Alan Keller, está em cartaz até o dia 22 de março, oferecendo um vislumbre da arte que pulsa nas paredes do Palácio.
Uma Exposição de Memórias
Cláudia Malta, que vivenciou praticamente todo o desenvolvimento do Palácio, reflete sobre a importância do espaço para Minas Gerais. “É a única instituição de grande porte que temos, e isso a torna única no Brasil. Nem mesmo o Municipal do Rio ou São Paulo possui um espaço com cinema, galeria de artes e uma escola tão completa quanto a nossa”, destaca a diretora, cuja história começou no início dos anos 1970, quando se tornou estudante de balé. “Eu andava de tábuas para chegar ao Estúdio A, e quando minha amiga me contou sobre as aulas com Carlos Leite, eu sabia que era onde eu queria estar”, relembra.
Em 1973, Cláudia se juntou ao grupo de dança profissional do Palácio, uma oportunidade que a fez repensar sua relação com a profissão: “Eu não poderia imaginar que seria paga para fazer o que mais amava”. Desde então, sua trajetória se entrelaçou com a história da casa, passando por diferentes setores antes de assumir a direção artística.
Desafios e Renovação
Essa convivência rendeu momentos marcantes, como o trágico incêndio que atingiu o Grande Teatro em 7 de abril de 1997. O incêndio, que destruiu parte da estrutura, foi um divisor de águas. “Foi um episódio triste, mas também representou um renascimento”, comenta Cláudia, enfatizando a importância da reconstruição que modernizou o teatro.
Sérgio Rodrigo Reis, que frequentou o Palácio na década de 1990, lembra como o evento tocou a cidade. “A reabertura do Grande Teatro, em 1998, simbolizou a resistência e a capacidade de superação”, afirma. Atualmente, ele destaca a necessidade de mais reformas, apontando que os planos de modernização ainda estão em negociação, após um financiamento do BNDES ser redirecionado para outras prioridades.
Manutenção e Sustentabilidade
Cláudia expressa sua preocupação com a manutenção do Palácio, ressaltando que a gestão exige uma combinação delicada de recursos públicos e parcerias. “Espero que a instituição receba cada vez mais apoio, pois o trabalho desenvolvido aqui é essencial”, afirma. Outros colaboradores também mencionam a diminuição das condições de trabalho e a escassez de carreiras técnicas que antes sustentavam a produção artística. “A equipe de manutenção é dedicada, mas pequena”, lamenta uma fonte que prefere permanecer anônima.
Essa situação é refletida nos salários pagos pela Fundação Clóvis Salgado, considerados baixos em comparação ao mercado. Ligia Amadio, ex-regente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, já havia criticado publicamente a remuneração baixa, enfatizando os desafios enfrentados pelos músicos.
A Continuação do Legado
Apesar das dificuldades, Cláudia Malta acredita firmemente na relevância do Palácio das Artes. “É mais do que cultura; é educação e saúde mental”, afirma, ressaltando o caráter acessível da programação. “Oferecer óperas a preços simbólicos é um compromisso com o público”, destaca.
Com uma programação que se estende ao interior do estado e iniciativas de formação artística, o Palácio busca democratizar a arte. Sérgio Rodrigo Reis, encerrando seu mandato como presidente da Fundação, acredita que a conexão com o público é um dos principais legados de sua gestão, especialmente após os desafios impostos pela pandemia. “Com uma programação rica e novas estratégias, conseguimos atrair novamente o público”, conclui, ressaltando a alegria de ver as filas nos eventos. Cláudia, por sua vez, reflete: “Nunca foi fácil, mas sempre foi gratificante”.
