Ambev Fomenta o Cultivo de Cevada no Sul do Brasil
Com a chegada do inverno no Sul do Brasil, não é apenas a temperatura que muda; é também a oportunidade para renegociações no campo. Nesse cenário, a cevada se destaca, ocupando espaços que antes eram dedicados ao trigo ou que permaneciam inexplorados. Embora discreta, a cevada é fundamental, servindo de pontes entre o trabalho agrícola e uma das indústrias mais robustas do país: a cervejeira.
O Brasil se posiciona como o terceiro maior produtor de cerveja mundial, e a base desse setor está diretamente vinculada à agricultura. Para muitos agricultores da Região Sul, a cevada se estabeleceu como uma fonte significativa de renda durante a safra de inverno, além de ser uma alternativa de rotação de culturas que permite um melhor aproveitamento da terra ao longo do ano.
Diante da crescente demanda por cevada, a Ambev, a maior cervejaria do Brasil, elaborou uma nova política comercial voltada para incentivar a produção desse grão. A partir deste ano, metade do valor da colheita de cevada cervejeira será assegurada por um preço fixo, enquanto a outra metade estará atrelada à cotação do trigo, que compete diretamente nas áreas de cultivo.
“Essa medida atende a um pedido dos produtores, uma vez que o preço do trigo sofreu uma queda substancial no último ano. Portanto, definimos um valor de R$ 75 por saca para assegurar os custos de produção. A outra metade permanece acoplada ao mercado de trigo para manter a lógica mercadológica”, explica Edivan Panisson, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev, em entrevista à CNN.
Estratégia de Negócio
A Ambev compromete-se a adquirir 100% da produção de cevada cervejeira na região, além de oferecer suporte técnico e orientações sobre manejo e variedades a serem plantadas. A cevada que não atingir os padrões de qualidade necessários para a produção de cerveja também será comprada pela empresa para uso como forragem.
Os agricultores recebem o pagamento no final de dezembro, após a colheita do cereal, que é realizada entre outubro e novembro, com plantio entre maio e junho.
Além dos contratos diretos com produtores do Rio Grande do Sul, a Ambev mantém uma parceria de longa data com a cooperativa Agrária no Paraná. Essa cooperativa, que possui uma instalação em Guarapuava, anunciou recentemente a construção de duas novas maltarias em Campos Gerais.
“O cultivo de cevada no Paraná é ainda mais expressivo que no Rio Grande do Sul e possui uma relevância enorme para nós. Por isso, garantimos a compra de todo o malte da cooperativa, o que representa um valor agregado para seus associados”, ressalta Panisson.
Expectativas de Crescimento
Para 2026, o Paraná planeja cultivar cevada em aproximadamente 111,3 mil hectares, apresentando um aumento de 7,3% em comparação ao ano anterior, impulsionado pela expansão da indústria de malte. Já o Rio Grande do Sul deverá abranger 34,5 mil hectares, com um crescimento de 9,9%.
A Embrapa chegou a explorar a possibilidade do cultivo de cevada no Centro-Oeste, mas os altos custos de irrigação tornaram essa abordagem inviável. Em estados como Goiás, Minas Gerais, São Paulo e no Distrito Federal, a Embrapa estima cerca de 5 milhões de hectares com condições favoráveis, mas a irrigação ainda representa um desafio significativo.
A principal dificuldade para a expansão da cevada cervejeira na Região Sul é o clima. O excesso de chuvas durante a fase reprodutiva da cultura pode comprometer a qualidade dos grãos, que muitas vezes não atendem aos padrões mínimos exigidos para malteação, conforme destaca Aloisio Vilarinho, pesquisador da Embrapa Trigo.
“No Sul, a colheita acontece na primavera. Durante esse período, enfrentamos ondas de calor, geadas tardias e chuvas constantes, que podem prejudicar as lavouras na fase de pré-colheita”, explica Vilarinho.
Inovação e Qualidade
Para mitigar as perdas, a pesquisa tem se dedicado ao desenvolvimento de cultivares que apresentam maior resistência a doenças e a adversidades climáticas, sem comprometer as características de qualidade requeridas para a produção cervejeira, como teor de proteínas entre 9% e 12%, além de grãos que atendam aos padrões estabelecidos pela legislação.
Além de fomentar a produção, a Ambev investe no uso de sementes que garantem a qualidade da cevada. Recentemente, a Ambev obteve a homologação da cultivar ABI Valente, fruto de 12 anos de pesquisa e desenvolvimentos. A nova variedade promete ser 16% mais produtiva do que as opções atualmente utilizadas, além de ter grãos 15% maiores e maior resistência a doenças fúngicas, reduzindo assim a necessidade de defensivos.
Os produtores parceiros não precisam pagar royalties pelo uso da cultivar Valente, que poderá, no futuro, ser licenciada para outras indústrias cervejeiras. Essa abordagem não só fortalece a produção local, mas também promove uma maior sustentabilidade no setor cervejeiro.
