Desafios do Agronegócio Mineiro
Minas Gerais acaba de vivenciar um marco econômico importante: pela primeira vez, o agronegócio superou a mineração em contribuição ao PIB estadual, alcançando impressionantes R$ 250 bilhões. Contudo, essa conquista vai além dos números; é uma nova identidade que ainda está sendo assimilada pelos empresários locais e pelas entidades que representam o setor.
A diversidade produtiva do agronegócio mineiro é única. O estado é responsável por uma vasta gama de produtos, como café, leite, soja, milho, cana-de-açúcar e uma rica horticultura, algo que nenhum outro estado brasileiro consegue igualar em profundidade. O Triângulo Mineiro exporta grãos para a Ásia, enquanto a Zona da Mata fornece cafés especiais para torrefadores europeus, que estão dispostos a pagar um prêmio por uma origem rastreável. Já o Sul de Minas é essencial para a cadeia leiteira que abastece quase metade do Brasil.
Esses resultados não surgiram por acaso. Décadas de investimento em pesquisa, extensão rural, cooperativismo e irrigação foram fundamentais. O produtor mineiro aprendeu, na prática, que diversificar é fundamental para a sobrevivência no mercado. Entretanto, a capacidade de produzir e a habilidade de comunicar essa produção de forma eficaz são competências distintas, e o mercado atual exige ambas.
Expectativas do Mercado Global
Ao fechar contratos, os importadores europeus não se contentam mais em conhecer apenas o preço e a qualidade do café mineiro. Perguntas cruciais sobre a pegada de carbono, condições de trabalho, desmatamento nos últimos cinco anos e regularidade fundiária são agora exigências. Esses não são questionamentos triviais, mas critérios essenciais para o acesso ao mercado.
Com a entrada em vigor do Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR) em junho de 2023, mesmo com sua aplicação prática adiada para 2025 e 2026, a rastreabilidade georreferenciada tornou-se uma exigência para produtos como café e soja que entram na União Europeia. Além disso, a nova diretiva CSRD obriga grandes empresas a reportar os impactos ambientais de sua cadeia de fornecimento, o que inclui os produtores rurais brasileiros.
A Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) também surge como uma iniciativa importante, focando em criar métricas financeiras para a biodiversidade. Instituições financeiras que adotam o TNFD passam a avaliar riscos associados ao uso da terra e à saúde dos solos, o que pode impactar diretamente o acesso ao crédito para os produtores que não tenham essas informações à disposição.
Avanços e Potencial no Agronegócio
Apesar dos desafios, não se pode deixar de reconhecer os avanços que já estão em andamento. O programa Irriga Minas, uma iniciativa do Governo de Minas Gerais, já distribuiu 20 mil kits de irrigação por gotejamento a agricultores familiares, aumentando a produtividade e reduzindo os riscos climáticos. Além disso, a Emater-MG regularizou mais de 12 mil títulos fundiários, permitindo que muitos produtores que estavam na informalidade tivessem acesso ao crédito, um passo importante para a formalização no setor.
O Circuito de Oportunidades de Minas, que movimentou R$ 28,6 milhões em 2025, mostra que 80% das negociações começaram a se consolidar após os eventos promovidos. O cooperativismo, especialmente nas cadeias do café e do leite, já implementa práticas de rastreabilidade há anos devido à exigência dos mercados de origem controlada. Assim, é crucial escalar o que já está funcionando, em vez de criar novas soluções a partir do zero.
A Necessidade de uma Nova Mentalidade
Embora o agronegócio mineiro tenha superado a mineração em termos de PIB, ainda há uma mentalidade estratégica a ser desenvolvida. Diferente da mineração, que sempre esteve consciente de sua inserção em cadeias globais, o agronegócio ainda precisa amadurecer nesta área. A reputação e a transparência são essenciais para atrair investimentos e, nesse sentido, o produtor rural deve adaptar sua narrativa às exigências do mercado internacional.
Os produtores que cultivam café há gerações e que nunca desmatam suas propriedades precisam aprender a comunicar suas práticas de forma clara e objetiva. Sem essa habilidade, a excelência da produção se torna invisível para aqueles que decidem onde investir e de quem comprar. A rastreabilidade é, portanto, uma forma de narrativa que deve ser construída com dados. Para o agro, a sustentabilidade já é uma prática; o que falta é traduzi-la em uma linguagem compreensível para o mercado.
