À Luz de Estudos: O Impacto das Cidades Verdes na Saúde
O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) lançou recentemente um boletim especial que explora a relação entre atividade física e saúde, reunindo dados de mais de uma década de acompanhamento de 15 mil participantes em seis estados do Brasil. As evidências recolhidas ao longo do estudo reiteram que o movimento voluntário, que envolve gasto energético acima do estado de repouso, é crucial para prevenir doenças crônicas e reduzir a mortalidade.
A vice-coordenadora do Elsa-Brasil na UFMG, Luana Giatti, que também é professora da Faculdade de Medicina, destaca que esses dados têm um potencial estratégico significativo para embasar políticas públicas voltadas à melhoria das condições urbanas. Isso porque a infraestrutura das cidades tem um impacto direto sobre o bem-estar da população.
Os pesquisadores da UFMG ressaltam a relevância do “ambiente de moradia” na promoção da saúde. Um estudo fundamental, oriundo de uma tese do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina, mostrou que viver em áreas com maior densidade de espaços verdes públicos, como praças, parques e ruas arborizadas, é um fator decisivo para a manutenção da prática de exercícios ao longo do tempo.
Espaços Verdes e Saúde: Uma Relação Direta
Um recorte específico sobre a população de Belo Horizonte revela que a proximidade das áreas verdes não apenas estimula a prática de atividades físicas, mas também reduz a probabilidade de obesidade e melhora os níveis de colesterol HDL, considerado benéfico para a saúde cardiovascular. Esses achados sustentam a ideia de que cidades saudáveis, que oferecem espaços seguros para caminhar e correr, são fundamentais para incentivar hábitos ativos entre os moradores.
A publicação do estudo também menciona que a atividade física pode ser avaliada tanto por meio de questionários quanto pelo uso de acelerômetros, dispositivos semelhantes a smartwatches que monitoram os movimentos diários com precisão. Com base em mais de 100 artigos revisados, o estudo conclui que a prática regular de atividades físicas é eficaz na prevenção e controle de condições como diabetes, hipertensão, obesidade e doenças cardiovasculares. Além disso, contribui para a saúde mental e a preservação das capacidades cognitivas, com benefícios observados em áreas como memória, linguagem e atenção, assim como na redução de dores de cabeça frequentes.
Sedentarismo vs. Atividade: O Impacto na Mortalidade
Segundo o documento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a prática de 150 minutos de atividade física moderada a vigorosa por semana, um hábito que está associado a uma redução de 25% no risco de morte ao longo de cinco anos. Para ilustrar, para cada quatro óbitos registrados em indivíduos sedentários, apenas três ocorrem entre pessoas ativas. O maior benefício em termos de sobrevivência foi observado entre aqueles que acumulam cerca de 7 mil passos diariamente, o que pode reduzir o risco de mortalidade em até 50%. Mesmo pequenas modificações na rotina, como trocar 10 minutos de inatividade por atividade moderada, podem diminuir o risco de morte em 10%.
O estudo também ressalta as dificuldades de manter-se ativo ao longo da vida, especialmente no período de transição para a aposentadoria. Dados do Elsa-Brasil mostram que a inatividade aumenta 65% entre homens e 55% entre mulheres após deixarem o mercado de trabalho. Além disso, a percepção sobre a vizinhança é crucial: os participantes que avaliaram positivamente o ambiente ao seu redor — levando em conta fatores como sombra de árvores, facilidade de caminhada e segurança no tráfego — apresentaram 69% mais chances de realizar atividades físicas no lazer e 19% mais probabilidade de se exercitar durante deslocamentos.
Uma Pesquisa Multicêntrica de Impacto
O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) é uma pesquisa multicêntrica que envolve 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior e pesquisa das regiões Nordeste, Sul e Sudeste do Brasil. O objetivo é investigar a incidência e os fatores de risco para doenças crônicas, especialmente as cardiovasculares e diabetes.
Os participantes da pesquisa, com idades variando entre 35 e 74 anos, passam por exames e entrevistas que avaliam aspectos como condições de vida, desigualdades sociais, relações de trabalho, gênero e especificidades da dieta brasileira. Além de impulsionar novas investigações, o estudo é considerado fundamental para a formulação de políticas públicas de saúde adequadas às necessidades do país. As seis instituições de pesquisa estão localizadas na Bahia (UFBA), Espírito Santo (Ufes), Rio de Janeiro (Fiocruz), São Paulo (USP), Rio Grande do Sul (UFRGS) e na UFMG, que abriga o segundo maior número de participantes, totalizando 3,1 mil pessoas. As atividades são realizadas no Ambulatório Borges da Costa, situado no campus Saúde.
