Uma Nova Perspectiva sobre o Fio e o Tempo
Na contramão do que foi discutido por Anni Albers, as artes têxteis estão em alta, tanto no mercado da arte quanto em exposições contemporâneas. No entanto, surge a pergunta: até que ponto essa ascensão representa um retorno às práticas manuais de tecer, ou simplesmente uma “instagramatização” desses processos criativos?
Em Belo Horizonte, três exposições simultâneas exploram a temática do fio, cada uma trazendo tons e gestos que se entrelaçam e se afastam, criando uma reflexão sobre a passagem do tempo e a importância de viver o presente de forma mais consciente.
“Gestos Tecidos no Tempo” em Destaque
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Com a abertura musical de Sérgio Pererê durante o feriado de Tiradentes, a exposição “Gestos tecidos no tempo”, da artista Isabel Miranda e apresentada na Funarte-MG, estabelece uma conexão entre tecidos e música, evocando uma espécie de oração ao tempo. Ao investigar a relação entre performance e corpo, Miranda resgata gestos que remetem à ancestralidade dos materiais que utiliza, incluindo uma homenagem aos laços familiares e à natureza, representados pelas tintas engobes que cobrem suas telas.
A curadora Luíza Marcolino destaca que a obra dialoga com experiências coletivas, unindo personagens como mães, avós e até mesmo elementos da natureza, como cachorros e árvores. A série tríptica que compõe a exposição reúne fotografias de uma performance onde os cabelos trançados e partes do corpo se transformam em símbolos da experiência feminina e da memória coletiva. A proposta é uma reflexão sobre o passado e o presente, questionando as fronteiras entre ambos.
Rita de Souza e a Arte do Reparar
A individual “Reparar entre linhas” da artista Rita de Souza, em cartaz na Piccola Galeria da Casa Fiat, apresenta 14 obras que transitam entre o desenho e o bordado sobre papel. A artista utiliza a chita como base, um tecido que carrega a memória do popular e a resistência cultural. Não é apenas sobre bordar; é uma reflexão sobre o ato de reparar, que abrange desde observar até remendar.
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As obras de Rita revelam a fragilidade e a força do tecido, utilizando as cores de forma que cada linha entremeada cria uma nova poética. A curadora Lorena D’Arc enfatiza a beleza encontrada nas imperfeições, alinhando a proposta da artista ao conceito japonês de wabi-sabi, que valoriza a beleza na simplicidade e nas marcas do tempo. Assim, a artista conecta suas obras à arte contemporânea brasileira, promovendo um diálogo entre o passado e os novos futuros que o fio pode tecer.
A Crítica Social em “Tecitura do Feminino”
A exposição “Tecitura do feminino”, de Marlene Barros, em cartaz no CCBB-BH, aborda questões cruciais, como a desvalorização do trabalho feminino ligado à costura e a crítica à pejoratividade frequentemente associada ao artesanato. Com obras que ecoam o trabalho de artistas como Anna Maria Maiolino, Barros busca expandir a discussão sobre a dessubjetificação do feminino, mesmo que algumas de suas criações pareçam não trazer inovação ao debate.
Os rostos costurados e as intervenções têxteis criam um diálogo com a sociedade, mas alguns críticos apontam que a repetição de temas não aporta novos olhares. Apesar disso, a artista utiliza materiais simples, como feltro, para desafiar percepções e provocar questionamentos sobre a presença feminina na arte e na sociedade.
As exposições em Belo Horizonte, além de celebrarem a arte têxtil, provocam reflexões profundas sobre a vida, a memória e a identidade feminina. Sejam através das obras de Isabel Miranda, Rita de Souza ou Marlene Barros, o fio continua a simbolizar mais do que apenas um material; ele é um vetor de transformação e resistência, que nos convida a habitar o presente com mais consciência e sensibilidade.
As exposições estão abertas ao público e prometem uma experiência enriquecedora para os apreciadores de arte e cultura. Não deixe de conferir essas obras que estão redefinindo a relação entre os fios e nossas narrativas pessoais e coletivas.
