O Legado de Marie Curie em Belo Horizonte
Marie Curie, física e química pioneira, marcou a história da ciência ao conquistar o Prêmio Nobel em duas áreas distintas: Física, em 1903, ao lado do marido Pierre Curie, e Química, em 1911. Ela descobriu os elementos polônio e rádio, revolucionando a compreensão da radioatividade. Há um século, sua visita a Belo Horizonte focou no Instituto do Radium, o primeiro centro oncológico do país, dedicado ao estudo do rádio e dos raios X, além de promover pesquisas e conscientização sobre o câncer.
O Instituto do Radium: Pioneirismo no Combate ao Câncer no Brasil
Fundado em 1922, o Instituto do Radium foi idealizado pelo professor Eduardo Borges da Costa, diretor da Faculdade de Medicina da UFMG, que buscou apoio do presidente Arthur Bernardes para construir um hospital especializado no tratamento do câncer. Instalado em uma área de 2.000 metros quadrados próxima ao Parque Municipal, o instituto contava com 120 leitos e laboratórios modernos para a época, incluindo setores de pesquisa clínica, anatomia patológica e microbiologia.
O hospital também oferecia tratamentos especializados como a Roentgenterapia, que utilizava raios X, e a Curieterapia, que aplicava fontes radioativas diretamente nos tumores, minimizando danos aos tecidos saudáveis. O instituto ganhou reconhecimento internacional, chegando a ser destaque no jornal médico francês La Presse Médicale, refletindo sua importância na medicina oncológica.
Visita de Marie Curie e seu Impacto Imediato na Saúde Pública
Em 17 de agosto de 1926, Marie Curie e sua filha Irène conheceram as instalações do Instituto do Radium, acompanhadas por líderes da instituição como Borges da Costa, Samuel Libânio e Levy Coelho. A cientista assinou o livro de visitas, documento hoje preservado no Centro de Memória da UFMG. Ela também doou duas agulhas de rádio, equipamento essencial para iniciar os tratamentos de Curieterapia em Belo Horizonte.
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O rádio, elemento químico descoberto por Marie e Pierre Curie em 1898, era raro e caro, mas fundamental para os estudos da radioatividade. A doação possibilitou o início imediato dos tratamentos radioterápicos, salvando vidas e posicionando Belo Horizonte como um centro de referência no combate ao câncer no Brasil. Após a visita, Marie enviou uma carta ao professor Borges da Costa agradecendo a acolhida e o empenho dos profissionais da cidade.
O Presente e Futuro do Instituto Borges da Costa
Em 1950, o Instituto do Radium foi renomeado Instituto Borges da Costa para homenagear seu idealizador. Incorporado à UFMG em 1967, o prédio histórico foi desativado em 1977 por problemas estruturais e, entre 1980 e 1998, serviu como moradia para estudantes. Atualmente, a universidade trabalha em um projeto de restauração que transformará o local em um hospital oncológico moderno, focado em procedimentos e tratamentos ambulatoriais para pacientes com câncer.
A Simplicidade e a Autoridade de Marie Curie em Belo Horizonte
No dia seguinte à visita, Marie Curie ministrou uma palestra na Faculdade de Medicina da UFMG sobre radioatividade e suas aplicações médicas. Entre os presentes estavam personalidades como Juscelino Kubitschek, Guimarães Rosa e o jovem estudante Pedro Nava, que mais tarde se tornaria um renomado escritor. Nava descreveu a cientista com uma “simplicidade desconcertante”, vestindo roupas modestas e exibindo mãos marcadas pelo trabalho com substâncias químicas.
Apesar do contraste com as expectativas da elite local, a autoridade do conhecimento de Curie transformou o anfiteatro. Nava relata que sua fala irradiava uma energia única, que cativou a audiência. No dia seguinte, Curie posou para fotografias oficiais ao lado de importantes médicos mineiros, consolidando seu legado na medicina brasileira.
Marie Curie: Pioneira da Ciência e da Medicina
Nascida na Polônia em 1867, Marie Curie naturalizou-se francesa e tornou-se uma das maiores cientistas da história. Além de ganhar dois Prêmios Nobel, ela liderou os primeiros estudos com isótopos radioativos para tratar tumores, fundou importantes institutos de pesquisa em Paris e Varsóvia e, durante a Primeira Guerra Mundial, desenvolveu unidades móveis de radiografia para hospitais de campanha.
O impacto de sua visita a Belo Horizonte ultrapassou seu tempo, influenciando diretamente a estrutura e os tratamentos oncológicos no Brasil. Hoje, sua história inspira pesquisadores e profissionais da saúde a continuarem avançando no combate ao câncer, valorizando a ciência e o cuidado com a vida.
