O Renascimento do Graffiti em Belo Horizonte
Quem anda por Belo Horizonte hoje percebe uma cidade que mudou sua cara desde os primeiros passos dos artistas de graffiti, décadas atrás. Muros, fachadas e empenas viraram verdadeiras telas a céu aberto, atraindo olhares e novos públicos. A arte urbana, antes confinada às ruas, agora marca presença em festivais, exposições, universidades e projetos públicos, sem perder sua essência nas vias da cidade.
A evolução dessa cena não foi rápida nem simples. Estudos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostram que intervenções já aconteciam desde os anos 1960, com os anos 1990 sendo cruciais para o surgimento de murais imponentes. A pesquisa da doutoranda Elisangela Batista da Silva relaciona os murais de artistas como Hugues Desmazières e Douglas Melo ao nascimento do Circuito Urbano de Arte (CURA), que ganhou importância local.
Transformações Técnicas e Culturais na Arte Mural
Binho Barreto, artista visual ativo desde 1995, testemunhou essa mudança de perto. Ele lembra que, no começo, os materiais eram limitados e improvisados. “Não existiam tintas específicas para arte urbana, usávamos tintas destinadas a outras funções, adaptando-as para os muros”, relata.
Além dos materiais, a linguagem do graffiti também evoluiu. Segundo Binho, o movimento brasileiro deixou de lado as influências estrangeiras para criar uma identidade própria. Ele prefere chamar sua expressão de “arte mural”, abrangendo diversas técnicas e estilos que hoje convivem nas ruas. Embora o graffiti ligado ao hip-hop continue vivo, a produção se diversificou, abrindo caminhos para projetos profissionais.
Hoje, é possível pensar em viver da arte mural. O cenário se profissionalizou graças a festivais, editais e projetos que movimentam não apenas artistas, mas também produtores, assistentes e profissionais de divulgação.
Iniciativas que Movimentam a Cena Cultural
Provas desse crescimento aparecem em projetos recentes. Em 2026, a Brexa Cultural, sob o Viaduto Santa Tereza, transformou-se em um espaço multifuncional, funcionando como galeria e cineclube. Sua primeira exposição reuniu dez artistas mineiros, incluindo nomes como Binho Barreto, Raquel Bolinho e Davi DMS.
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Outro destaque é o edital Gentileza, que recebeu 198 inscrições e selecionou 40 propostas contemplando linguagens variadas, como graffiti, muralismo, lambe-lambe e estêncil, espalhadas por diferentes regiões da capital.
Visibilidade e Desafios para Artistas Negros e Mulheres
Para a artista multidisciplinar Criola, apesar do aumento da visibilidade, o reconhecimento financeiro ainda fica aquém do esperado. Ela destaca a distância entre participação em grandes festivais e remuneração justa, especialmente para artistas negros.
Natural de Belo Horizonte, Criola traz em sua obra memórias da favela, espiritualidade e histórias familiares, incorporando mulheres negras e referências afro-brasileiras aos muros da cidade. Para ela, esses espaços são extensões de narrativas que pouco apareceram na paisagem urbana tradicionalmente cinza e embranquecida.
Além disso, a cena tem se tornado mais diversa, com maior presença feminina e diferentes perspectivas. Criola ressalta a necessidade de BH investir mais em reconhecimento econômico, oportunidades e remuneração para os artistas locais.
Coletivo Minas de Minas: Mulheres que Transformam Muros
A ocupação feminina nos muros é um capítulo importante dessa transformação. O coletivo Minas de Minas, fundado em 2012 por Krol, Musa, Nica e Viber, surgiu da percepção de que as mulheres eram minorias desconectadas na cena. Carol, que iniciou no graffiti em 2007, destaca a força da união para ampliar a presença feminina.
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O coletivo também reforça a representação feminina, especialmente de mulheres negras, em grandes espaços públicos. Entre seus trabalhos está o mural em homenagem a Elza Soares, próximo à Estação Central.
Para Carol, ocupar uma empena vai além da arte: é contar histórias. “A gente traz nossa trajetória e a das mulheres retratadas, para que quem passe por ali se conecte e queira saber mais sobre essas figuras”, explica.
A Relação de Belo Horizonte com sua Arte Urbana
Ao longo dos anos, a relação do público com a arte urbana se intensificou. Em 1995, quando Binho Barreto começou, o termo graffiti era quase desconhecido. Hoje, a produção é compartilhada nas redes sociais, fotografada e integrada a circuitos culturais.
O Circuito Urbano de Arte (CURA), criado em 2017, é um dos exemplos mais visíveis dessa transformação, convertendo empenas em grandes obras que dialogam com a cidade. O festival nasceu como uma declaração de amor a Belo Horizonte e a sua ocupação artística e política dos espaços públicos.
Mesmo com a visibilidade ampliada, a arte urbana mantém sua conexão com o espaço público. Para Criola, a diversidade é uma característica marcante da cena local. Ela enxerga uma produção que brota da iniciativa dos próprios artistas, ligados aos seus bairros e comunidades, e destaca a autonomia como força fundamental dessa cultura em Belo Horizonte.
