Mudanças necessárias para melhorar a segurança no trânsito são debatidas por especialistas
O Anel Rodoviário, localizado em Belo Horizonte, destaca-se como a via do estado com o maior número de acidentes de trânsito relacionados à embriaguez ao volante. De acordo com dados de 2025 divulgados pelo Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais, foram registradas 27 ocorrências relacionadas a essa problemática na rodovia. Esses números são parte de um total de 4.066 acidentes em todo o estado no último ano, conforme informações da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG). Apesar de ações de fiscalização, como a implementação da Lei Seca, especialistas enfatizam a urgência de uma mudança cultural no Brasil que rompa com a normalização da combinação entre álcool, lazer e direção.
No cenário de Belo Horizonte, em 2025, contabilizaram-se 390 acidentes que tiveram a embriaguez como causa presumida. Dentre esses, 161 resultaram em vítimas, enquanto 229 aconteceram sem feridos. Infelizmente, quatro pessoas perderam a vida. Comparando com 2024, houve um leve aumento nas ocorrências, já que no ano anterior foram registrados 385 sinistros, representando uma leve variação de 1,2%.
As vias com maior incidência de acidentes relacionados à embriaguez na capital mineira foram novamente o Anel Rodoviário e a Avenida do Contorno, com 11 ocorrências cada. Em 2024, essas vias continuaram a liderar o ranking, com 32 e 14 registros, respectivamente. Embora o número de episódios tenha subido em comparação a 2023, houve uma redução significativa de 20% nos registros desse tipo, já que foram contabilizadas 488 ocorrências, com 171 delas envolvendo vítimas, no ano anterior.
De acordo com Alysson Coimbra, diretor científico da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (Ammetra), as ocorrências frequentes no Anel Rodoviário podem ser atribuídas ao desrespeito aos limites de velocidade, agravado pela diminuição da capacidade psicomotora dos motoristas após o consumo de álcool.
A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) assumiu a administração dos 22,4 quilômetros do Anel Rodoviário, que vão do Bairro Olhos D’Água até a Avenida Cristiano Machado, em junho de 2025. Diariamente, aproximadamente 120 mil veículos transitam por essa via. Para garantir a segurança, a Guarda Civil Municipal intensificou as operações de patrulhamento, realizando 2.282 ações preventivas entre junho e dezembro, além de 144 intervenções e 142 operações de trânsito.
Durante essas ações, a Guarda Municipal posicionou viaturas em nove locais estratégicos, como o Viaduto São Francisco e as imediações do Bairro Olhos D’Água. O empenho do corpo de segurança resultou na prisão de cinco pessoas, incluindo um motorista flagrado dirigindo sob efeito de álcool e outro que possuía um mandado de prisão em aberto.
Além disso, a BHTrans, em colaboração com a Guarda Municipal, realizou 1.335 atendimentos na rodovia entre setembro e dezembro do ano passado. Desse total, 237 foram acidentes sem vítimas, 170 envolveram feridos e 640 foram relacionados a problemas mecânicos. Essa operação integrada visa garantir respostas rápidas às ocorrências e manter o fluxo de veículos.
No início deste ano, pelo menos duas situações envolvendo motoristas embriagados chamaram a atenção das autoridades. Um dos casos ocorreu no dia 18 de janeiro, quando uma carreta de leite caiu em uma vala no Anel Rodoviário. O motorista, que apresentava sintomas de embriaguez, foi abordado pela Guarda Civil. Ele se negou a realizar o teste do bafômetro, mas dentro do veículo foram encontrados indícios claros de consumo de álcool. O homem foi preso em flagrante e levado à delegacia.
No dia seguinte, um outro motorista foi detido após um teste de etilômetro confirmar a presença de álcool em seu organismo, enquanto participava de um racha na Avenida Pedro I. O incidente resultou em uma colisão entre veículos, levando à necessidade de intervenção do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Alysson Coimbra ressalta que o álcool afeta diretamente o sistema nervoso central, comprometendo a capacidade de julgamento e o tempo de reação do motorista, além de alterar sua percepção de risco. Isso pode levar a um comportamento excessivamente confiante ao volante, aumentando significativamente o risco de acidentes.
Os dados do Observatório de Segurança Pública da Sejusp-MG apontam que, em 2025, Minas Gerais registrou 4.066 acidentes com a embriaguez ao volante como causa. A maioria das ocorrências envolveu veículos de passeio e motocicletas, com 3.462 e 1.023 registros, respectivamente. Durante esse período, 95 acidentes resultaram em mortes.
A diferença entre 2025 e 2024 é pequena, com uma ligeira queda de 0,31% nos acidentes, mas um aumento alarmante de 31% nas fatalidades em comparação às estatísticas de três anos atrás, quando 72 mortes foram registradas.
Para Coimbra, a transformação dessa realidade depende da adoção de três frentes de ação: educação da população, identificação e acompanhamento de usuários abusivos de álcool e uma mudança cultural no Brasil que desestimule a relação entre álcool e direção. Ele argumenta que a sociedade deve valorizar alternativas seguras, como o uso de transporte por aplicativo e a escolha de motoristas da vez, para promover um comportamento socialmente aceito e seguro.
Recentemente, a gravidade dos acidentes relacionados à embriaguez ficou evidente em um caso trágico que resultou em homicídio culposo de trânsito. Gabriel de Faria, de 26 anos, foi indiciado após perder a namorada, Brunna Ribeiro de Castro Rosas, de 22 anos, em um acidente provocado por sua condução embriagada. O carro que dirigia colidiu com um poste e pegou fogo, resultando em ferimentos severos para Gabriel e a morte de Brunna.
O impacto do álcool na gravidade dos acidentes é inegável, já que motoristas sob sua influência tendem a dirigir em velocidades mais altas e desrespeitar limites de segurança, aumentando a chance de vítimas fatais. Para Coimbra, enfrentar essa questão no contexto da saúde pública é crucial, pois o consumo de álcool não apenas eleva o número de acidentes, mas também transforma muitos incidentes em tragédias.
O cenário da segurança no trânsito em Minas Gerais continua a ser uma preocupação, e as medidas para mudar essa realidade precisam ser implementadas urgentemente, a fim de preservar vidas e garantir um tráfego mais seguro para todos.
