Reflexões sobre a Performatividade Política
Nos últimos dias, muitos brasileiros se viram perplexos e indignados diante de um polêmico “experimento social” promovido pela deputada Fabiana Bolsonaro. Ao pintar o rosto, o pescoço e os braços de marrom, a parlamentar quis reafirmar a ideia de que a identidade não pode ser dissociada de características biológicas fixas. Esse argumento, no entanto, é utilizado para deslegitimar identidades de gênero trans. O problema reside não apenas na fragilidade dessa premissa, mas na maneira como foi apresentada: de forma simplista, caricatural e intelectualmente inconsistente.
A tentativa de reduzir identidades complexas a uma abordagem estritamente biológica ignora não só décadas de estudos nas áreas de genética, psicologia e ciências sociais, como também desconsidera as experiências vividas de milhões de pessoas. Ao escolher uma encenação para expressar suas ideias, o debate público foi deslocado do campo argumentativo para o terreno da provocação, onde o impacto imediato frequentemente supera a consistência das ideias apresentadas.
Adicionalmente, a situação revela uma contradição interessante. A mesma parlamentar que defende uma visão rígida e essencialista da identidade utiliza, em sua vida pública, um nome que não corresponde ao seu nome de nascimento (Barroso), ligando-se simbolicamente a um projeto político e a uma figura masculina específica. É crucial esclarecer que isso não pode ser equiparado às identidades de gênero – e não devemos confundir os contextos – mas a situação evidencia que identidades sociais e públicas também são, em certa medida, construídas, negociadas e performadas, ou seja, são “trans”.
A Seletividade da Flexibilidade Identitária
A seletividade com que essa flexibilidade é reconhecida expõe as limitações do argumento defendido pela deputada. Para agravar a situação, em 2022, a própria parlamentar se autodeclarou “parda” à Justiça Eleitoral, uma categoria que no Brasil refere-se a pessoas de origem racial mista, permitindo-lhe acessar recursos específicos para financiamento de campanha. A posterior mudança na forma de se identificar, agora como “mulher cis branca”, reforça o caráter estratégico e circunstancial dessas classificações.
Temas complexos acabam sendo reduzidos a simples slogans, enquanto questões delicadas são utilizadas como ferramentas na disputa simbólica. O episódio envolvendo a deputada certamente não é um caso isolado; já presenciamos situações semelhantes na Câmara dos Deputados, em Brasília. De acordo com as reflexões do filósofo francês Guy Debord, essa situação se insere em uma tendência mais ampla, onde a política se aproxima, de forma alarmante, do espetáculo. Nesse contexto, performances calculadas, gestos provocativos e declarações de forte impacto tornam-se estratégias de mobilização, muitas vezes em prejuízo de um debate público mais profundo e qualificado.
O Impacto da Banalização na Política
Por consequência, temas complexos se resumem a slogans vazios e questões sensíveis são instrumentalizadas como peças de uma disputa simbólica. Diante desse cenário, é fundamental refletir sobre os rumos do debate público no país. Quando as instituições falham em estabelecer limites claros para práticas que banalizam questões fundamentais, recai sobre a sociedade – e, em última instância, sobre o eleitorado – a responsabilidade de exigir maior rigor, seriedade e comprometimento com a verdade. Afinal, quando a política se transforma em espetáculo, não apenas o debate se empobrece: a própria noção de vida pública se deteriora.
