Consumo de Álcool em Belo Horizonte: Um Crescimento Alarmante
De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o consumo de álcool entre os moradores de Belo Horizonte (BH) supera a média nacional. O levantamento indica que a cidade, alinhada a uma tendência observada em outras capitais brasileiras, viu um crescimento de 5,1% no uso dessa substância. Atualmente, 22,4% da população de BH consome álcool, enquanto a média nas demais capitais é de 20,8%.
A pesquisa intitulada ‘Tendências temporais no consumo abusivo de álcool e suas projeções nas capitais brasileiras’ coletou dados do Vigitel ao longo de 17 anos, envolvendo aproximadamente 800 mil adultos com 18 anos ou mais. Os resultados revelam uma maior incidência de consumo abusivo entre mulheres e pessoas com nível de escolaridade superior, além de diferenças notáveis entre grupos raciais.
Em entrevista ao BHAZ, a professor Deborah, responsável pela pesquisa, destacou a preocupação com os dados, que mostram o Brasil se distanciando da meta global de redução do consumo de álcool, que visa uma diminuição de 10% até 2030. “O foco da pesquisa são os fatores de risco para doenças crônicas, incluindo o uso de tabaco e álcool, bem como hábitos alimentares e atividade física. Analisando esses dados, podemos observar mudanças ao longo do tempo que ajudam a prever doenças cardiovasculares, câncer e outros problemas de saúde”, explicou.
Aumento do Consumo entre Mulheres
Os dados também apontam que o consumo de álcool entre mulheres nas capitais brasileiras aumentou consideravelmente, subindo de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023. Em Belo Horizonte, esse aumento foi ainda mais expressivo, passando de 12,1% para 18%, o que representa um crescimento de 5,9%. Com esse resultado, a capital mineira se tornou uma das cinco cidades com maior prevalência de consumo alcoólico no Brasil, ficando atrás apenas de Salvador, Porto Alegre, Brasília e Florianópolis.
A professora Deborah sugere que esse aumento no consumo entre mulheres pode estar ligado a campanhas de marketing direcionadas a esse público específico, além de mudanças nos comportamentos sociais. “A comunicação das indústrias mudou, agora elas buscam se conectar com as mulheres, oferecendo drinks diferenciados e promovendo a ideia de autonomia. Por outro lado, fatores como estresse e a sobrecarga da jornada de trabalho podem estar levando à busca pelo álcool como uma forma de aliviar a tensão”, afirmou.
Para os homens, a pesquisa mostrou uma estabilidade no consumo, com a média nacional passando de 25% em 2006 para 27,3% em 2023. Em BH, a variação foi sutil, de 27,1% para 27,7% no mesmo período.
Jovens Reduzem o Consumo de Álcool
Ao analisar o consumo de álcool por faixa etária, a pesquisa revelou um aumento em todas as idades, exceto entre jovens de 18 a 24 anos e adultos de 45 a 54 anos. Em Belo Horizonte, o crescimento foi observado apenas nas faixas de 25 a 34 anos e de 55 a 64 anos. “Os jovens de 18 a 24 anos apresentam um consumo menor e estável, o que pode ser associado ao fato de muitos serem estudantes, o que reduz seu poder aquisitivo e favorece a adoção de hábitos mais saudáveis”, explicou Deborah.
O levantamento também constatou um aumento significativo no consumo entre indivíduos com 12 ou mais anos de escolaridade, que subiu de 18,1% para 24%. Essa mudança pode estar relacionada a novos estilos de vida, maior acesso a ambientes sociais onde o consumo de álcool é comum e uma aceitação maior do uso da substância.
Desafios e Projeções Futuras
No que diz respeito à média nacional, a pesquisa aponta um aumento na prevalência do consumo de álcool em diversas regiões, como Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul. Deborah mencionou que, de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, o Brasil deveria alcançar uma taxa de 15,5% para o consumo total até 2030, mas, segundo as tendências atuais, projeta-se que essa prevalência chegue a 22,2% nesse mesmo período.
“Compreender as tendências de consumo e as motivações por trás delas é crucial. Precisamos de estratégias que envolvam educação, regulamentos mais rígidos sobre a publicidade e a venda de bebidas alcoólicas. Isso é vital para reduzir os riscos associados ao consumo de álcool, que está diretamente ligado a diversas doenças e ao aumento do risco de violência”, reforçou Deborah.
Além da professora Deborah, a pesquisa conta com a colaboração de outros pesquisadores da UFMG, como Crizian Saar Gomes, Regina Tomie Ivata Bernal, Alanna Gomes da Silva, Filipe Malta Santos e Sther Luna Abras dos Santos. Também participaram doutores de instituições como a Universidade Federal Fluminense e da Universidade Nova de Lisboa, além de representantes do Ministério da Saúde.
