Desafios Emocionais entre adolescentes
A mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) trouxe à tona um quadro alarmante sobre a saúde mental de adolescentes no Brasil, especialmente entre as jovens. O levantamento, realizado pelo IBGE em colaboração com o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação, abrangeu estudantes de 13 a 17 anos, da 7ª série do Ensino Fundamental até a 3ª série do Ensino Médio, em instituições públicas e privadas de todo o país.
Os dados revelam que 25% das meninas afirmam considerar que a vida não vale a pena ser vivida, um índice que é duas vezes maior do que o registrado entre os meninos, que chega a 12%. Além disso, 43,4% das meninas relataram ter vontade de se machucar intencionalmente no ano anterior à pesquisa, enquanto a porcentagem entre os meninos é de 20,5%.
A Invisibilidade e o Alerta nas Escolas
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Felipe Dutra, professor de ensino fundamental e médio na rede pública do Distrito Federal, destaca que o sofrimento emocional das meninas tem raízes que podem ser identificadas no ambiente escolar. Ele aponta dois fatores principais: a carência afetiva, frequentemente associada ao contexto familiar, e a intensa pressão estética que gera constantes comparações e críticas. “Essas comparações são alimentadas por uma busca por perfeição, muito disseminada por influenciadores digitais”, analisa.
O educador observa também que, ao contrário das crianças, as adolescentes tendem a ocultar seu sofrimento por medo de represálias e de não querer preocupar os outros. Quando uma escola identifica um caso de vulnerabilidade emocional, o caminho habitual é avisar a família e, quando possível, encaminhar a jovem a um psicólogo ou educador social. Para Dutra, o que as instituições de ensino mais necessitam são estruturas de apoio emocional e profissionais qualificados que possam oferecer acolhimento, além do suporte pedagógico.
A Voz de Quem Viveu a Experiência
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Aisha Haila, uma jovem de 20 anos de Aracaju (SE), compartilha que os dados da PeNSE representam mais do que meras estatísticas; eles refletem uma realidade que ela viveu intensamente. Durante sua adolescência, Aisha enfrentou um isolamento profundo, uma situação que se agravou com a pandemia de covid-19, levando-a a questionar seu próprio valor e importância. Ela também começou a lidar com os desafios de uma neurodivergência que ainda busca entender.
“O isolamento amplifica problemas emocionais. Você começa a acreditar que sua vida não tem valor, porque está preso em uma bolha”, reflete Aisha. Sua necessidade de ajuda se tornou clara após anos enfrentando pensamentos suicidas que começaram quando tinha apenas 11 anos. Aisha descreve uma experiência de “vazio absoluto”, onde não conseguia sentir raiva, tristeza ou alegria: “Chegou um momento em que não se tratava mais de dor, mas de uma sensação indefinível. Eu não sentia nada.”\
A virada ocorreu quando ela percebeu que estava vivendo de forma automática, de ano a ano, e decidiu que merecia mais. Buscou aconselhamento profissional e se engajou em atividades terapêuticas. O que realmente fez a diferença em sua recuperação, conforme conta, foi o senso de comunidade proporcionado pelo trabalho voluntário. Esses projetos a incentivaram a se manter ativa e a interagir com outras pessoas. “Uma das coisas que me ajudou a sobreviver foi me doar ao próximo. Comecei a ver valor em mim mesma, ao perceber que poderia impactar a vida dos outros”, explica.
Mensagem de Esperança
Aisha compartilha uma mensagem de esperança para outras meninas que se sentem sem propósito: a importância da persistência e da autoafirmação. “Procurem ajuda profissional e de adultos de confiança, mas também combatam as vozes internas negativas diariamente. Se contradiga sempre que a voz crítica surgir, diga em voz alta: ‘Eu sou suficiente. Eu mereço viver’. Embora pareça difícil no início, essa prática pode transformar a sua realidade. Fale até que isso se torne verdade. Eu fiz isso e, no final, virou minha verdade.”\
Atualmente, Aisha faz parte do comitê de jovens do Instituto Cactus, onde atua no serviço social. Para ela, essa é uma forma de garantir que outras histórias não fiquem esquecidas. “Não quero ser apenas um dado em uma pesquisa. Quero que minha verdade seja ouvida, assim como a de muitas outras pessoas ao meu redor”, conclui.
