Ascensão e Queda do Selo Ceia
A Ceia, fundada por Don Cesão e Nicole Balestro, encerrou suas atividades em 2023, deixando um rastro de controvérsias envolvendo direitos autorais e disputas judiciais. O selo, que se destacou na cena do rap nacional, tornou-se foco de discussões acaloradas nas redes sociais e, mais tarde, no tribunal.
Com uma década de existência, a Ceia voltou ao centro das atenções devido a uma série de diss tracks, músicas criadas para atacar adversários. No dia 13 de março, Don Cesão lançou “Doze Judas Na Minha Ceia”, abordando o fim do selo e as desavenças com os artistas. Clara Lima, conhecida como Tasha, respondeu com “O Que Me Diss Respeito”, e logo após, uma tréplica surgiu, intensificando a polêmica.
O G1 examina a trajetória da Ceia, desde a sua ascensão meteórica até os problemas que levaram ao seu declínio.
Modelo Inovador e Sucesso Inicial
A Ceia surgiu com um modelo de negócios inovador: não havia contratos formais entre a empresa e os artistas. Em vez disso, acordos verbais determinavam que 90% dos lucros seriam destinados aos artistas, enquanto apenas 10% ficariam com a Ceia. Don Cesão se posicionava como “caça-talentos”, buscando novos talentos no rap, enquanto sua esposa, Nicole Balestro, cuidava das questões administrativas.
Nicole, que também tinha experiência no setor, havia trabalhado em eventos de rap em São Paulo e atuado como produtora na equipe de Flora Matos. A Ceia se destacou ainda por suas parcerias comerciais, envolvendo grandes marcas como Budweiser, Adidas e Itaú.
Durante seus anos de operação, a Ceia firmou-se como um dos principais selos do rap. O destaque do time era Djonga, que, vindo de Belo Horizonte (MG), se tornou um dos rappers mais populares do Brasil. Tasha & Tracie evoluíram de promessas a referências no cenário musical, participando de festivais renomados como o Lollapalooza Brasil. Kyan, vindo da Praia Grande, também se destacou como uma das novas vozes do trap nacional.
Desentendimentos e Declínio
Em março de 2023, após um período de tensões e acusações nas redes sociais, Don Cesão anunciou o fim da Ceia em um vídeo no Instagram. Os artistas expressaram preocupações quanto à falta de transparência contábil e sobre seus direitos relacionados aos fonogramas. Enquanto isso, Don Cesão e Nicole sustentavam que a ausência de contratos formais causou mais problemas do que soluções.
Djonga, o artista mais vocal sobre sua insatisfação, criticou a falta de estrutura da empresa e revelou que precisou de um acordo para adquirir sua parte dos fonogramas. A transação mais conturbada envolveu seus álbuns “NU” e “Histórias do Meu Lugar”, que foram comprados da Ceia por cerca de R$ 300 mil. Contudo, os direitos dos três primeiros álbuns de Djonga, “Heresia”, “O Menino Que Queria Ser Deus” e “Ladrão”, permaneceram vinculados a Don Cesão, que acabou vendendo esses direitos ao produtor Rodrigo Oliveira, que, por sua vez, revendeu-os a Djonga.
Conflitos Judiciais e Acusações
Em contato com o G1, foi apurado que, embora nenhum artista tenha processado a Ceia enquanto empresa, quatro deles estão em litígio contra Nicole Balestro, a ex-empresária do selo. Kyan, Djonga, Tasha e Tracie processaram Nicole por crimes contra a honra e por calúnia e difamação.
Em julho de 2025, Nicole divulgou em suas redes sociais que os artistas ainda deviam quantias significativas, entre R$ 200 mil e R$ 600 mil. No entanto, os músicos negaram as alegações, afirmando que a ex-empresária estava distorcendo a verdade. Nicole também alegou que alugou um carro em nome de Kyan, que teria se envolvido em um acidente. O artista refutou essa versão e a empresa responsável pelo aluguel processou Nicole.
Além disso, Nicole afirmou que arcou com uma dívida de Djonga com a agregadora Altafonte, mas os detalhes dessa situação ainda estão obscuros, uma vez que os processos virtuais estão em segredo de Justiça.
