Desafios da Comunidade Warao em Belo Horizonte
Um grupo de indígenas venezuelanos da etnia warao, que se encontra no Brasil há quase cinco anos, ainda aguarda por definições sobre seu futuro. A jornada desses migrantes começou em Pacaraima, Roraima, e os levou por diversas cidades, como Manaus, Belém, Fortaleza, João Pessoa e Itabuna. Em 15 de novembro, eles chegaram a Minas Gerais, mais especificamente a Montes Claros, e, no último sábado, desembarcaram em Belo Horizonte.
Composto por 41 pessoas de oito famílias, o grupo foi acolhido em um abrigo no Bairro Bonfim, na Região Noroeste da capital mineira. A equipe do Estado de Minas visitou o local, mas não conseguiu entrar para averiguar as condições das instalações. Amariomata, o líder da comunidade, dialogou com a reportagem nas ruas, expressando o desejo de permanecer na cidade, onde outros membros da etnia já residem, mas ressaltando a incerteza que permeia sua estadia.
Conforme informações da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), o grupo inclui 26 crianças, que, segundo Amariomata, ainda não estão matriculadas na escola. Junto aos jovens, há quatro idosos e 11 adultos, nenhum dos quais possui emprego. O líder indígena revelou que tem buscado trabalho em supermercados, mas enfrenta dificuldades. “Já faz dois anos que não consigo trabalhar. Onde posso conseguir um emprego? Não quero pedir nas ruas”, questiona.
Condições de Alojamento e Adaptação Cultural
Amariomata também compartilhou sua insatisfação com as condições do abrigo. O local, que possui quartos, não proporciona o estilo de vida ao qual sua comunidade está habituada, que inclui dormir em redes e estar em contato com a terra. “Na Venezuela, nossa cultura é diferente. Nós mesmos cultivamos bananas, macaxeira e inhame”, disse. Ele acrescentou: “Quero cozinhar. Minha esposa deseja cozinhar. A criança não gosta do que é servido aqui”.
No abrigo, ao lado dos indígenas, também há brasileiros, o que gera insegurança para os migrantes. “Preciso de uma casa, um lugar só para nós, para cuidar das crianças. Aqui é perigoso, com brasileiros fumando”, desabafa. Amariomata anseia por um lar que permita que suas crianças frequentem a escola.
Desafios e Decisões Difíceis
Apesar das dificuldades enfrentadas, o grupo está firme na decisão de não retornar à Venezuela. “Lá, não recebemos nada. Não há ajuda, comida. Os warao estão passando fome na Venezuela”, enfatiza. Ele destaca que no Brasil têm acesso a alimentos variados, como arroz, macarrão e frango. Além disso, Amariomata menciona que sua etnia tem sido alvo de violência e ataques.
Questionado sobre a situação atual na Venezuela sob o governo de Nicolás Maduro, Amariomata admite não ter muitas informações, uma vez que está fora do país há um tempo considerável. Contudo, ele lembra das dificuldades enfrentadas: “O presidente Maduro não ajuda. Passamos fome, as crianças ficavam dias sem comer”. Ele lamenta a falta de recursos para comprar roupas e remédios.
O grupo também não tem planos de voltar a Montes Claros, onde foram inicialmente alocados em um ginásio. A prefeitura da cidade ofereceu uma nova residência na área rural, que, segundo Amariomata, era pequena e distante do centro, o que dificultaria o acesso a mantimentos e oportunidades de trabalho. “Quero ficar em Belo Horizonte e conseguir um emprego, assim como minha família”, conclui.
Contexto dos Migrantes Venezolanos em Minas Gerais
Além dos indígenas Warao, Belo Horizonte abriga outros 72 migrantes venezuelanos em uma unidade da PBH na Vila Pinho, e Amariomata mencionou ter parentes nesse grupo. Dados do último Censo Demográfico do IBGE mostram que os venezuelanos são o maior grupo estrangeiro no Brasil, com cerca de 271,5 mil pessoas registradas em 2022.
A PBH declarou que as ações implementadas buscam garantir a proteção integral dos migrantes, incluindo alimentação e respeito às tradições culturais. O trabalho visa promover a emancipação social e a autonomia das famílias, com equipes atuando na inclusão no Cadastro Único e na regularização de documentos. A permanência na unidade de acolhimento é planejada para ser de 18 meses, adaptável conforme a realidade de cada família.
A Cultura Warao e Suas Raízes
Os Warao habitam o leste da Venezuela, principalmente às margens do Rio Orinoco, onde sua cultura está intrinsecamente ligada à água e à pesca. Amariomata explica que a região é predominantemente aquática e que o transporte é realizado por vias fluviais. Essa comunidade vive da pesca, coleta e cultivo de vegetais, além de se dedicar ao artesanato. “Na Venezuela, nossa cultura é diferente. Nós mesmos cultivamos”, conclui, enfatizando a importância de suas tradições e modo de vida.
