Desigualdade de Gênero na Ciência Brasileira
A presença feminina na ciência do Brasil tem apresentado um crescimento notável, mas o impacto das pesquisas realizadas por mulheres ainda é inferior ao dos homens. Essa constatação emergiu de uma série de estudos desenvolvidos pela Bori nos últimos anos.
Um relatório divulgado em 2024, fruto de uma colaboração com a editora científica Elsevier, examinou a atuação das cientistas brasileiras entre 2002 e 2022. Os dados revelaram um cenário otimista: em 2022, 49% dos autores de publicações científicas eram mulheres, marcando um avanço em comparação com os 38% registrados em 2002.
No mesmo intervalo, o aumento da participação feminina nas áreas de STEM – ciência, tecnologia, engenharia e matemática – foi significativo, passando de 35% em 2002 para 45% em 2022.
O estudo posicionou o Brasil como o terceiro país no mundo com maior representação feminina na ciência, superado apenas por Argentina e Portugal. A análise abrangeu 18 países e a União Europeia, focando exclusivamente nas contribuições dos gêneros masculino e feminino.
Desafios Persistentes nas Diferentes Áreas do Conhecimento
Ainda que os números sejam promissores, a distribuição das mulheres nas diferentes áreas do conhecimento ainda revela estereótipos de gênero. Por exemplo, em campos como farmacologia, toxicologia, farmácia e psicologia, a participação feminina ultrapassa 60%. Já na enfermagem, esse número chega a impressionantes 80%. Em contrapartida, nas ciências exatas, os índices são significativamente menores, com apenas 19% de mulheres em matemática, 21% em computação e 27% em astronomia.
No final do ano passado, a Bori avançou em sua pesquisa com um novo estudo, desta vez em parceria com a plataforma Overton. Este trabalho se concentrou na análise do impacto das políticas públicas em todo o mundo.
Os resultados indicaram que a influência das pesquisas realizadas por mulheres ainda é aquém da dos homens. As cientistas enfrentam obstáculos consideráveis para que seu trabalho se traduza em mudanças concretas na sociedade, especialmente no que diz respeito a políticas públicas.
Pouca Representatividade nas Políticas Públicas
Entre os 107 pesquisadores brasileiros cujos trabalhos foram analisados e citados por autoridades governamentais e organizações internacionais, apenas 23 eram mulheres, totalizando 21,5%. Além disso, os cinco cientistas mais influentes nas decisões políticas do Brasil são todos homens.
A Bori entrevistou algumas das pesquisadoras mencionadas na pesquisa. Ester Sabino, imunologista e membro da Academia Brasileira de Ciências, destacou que as múltiplas responsabilidades enfrentadas por muitas mulheres, somadas a questões culturais, afastam as cientistas de posições de liderança. Segundo ela, é crucial aumentar a presença feminina à frente de grandes projetos de pesquisa.
Carolina Brito, professora de física da UFRGS, ressaltou outro aspecto problemático: iniciativas institucionais voltadas para a diversidade, que se fortaleceram nas universidades, frequentemente recaem sobre as poucas pesquisadoras atuantes, especialmente nas ciências exatas, gerando uma sobrecarga ainda maior sobre elas.
