A renegociação do contrato com a capital mineira pode definir o futuro da Copasa
A proposta de privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) está prestes a entrar no mercado, mas uma questão central permanece em aberto: a renovação do contrato entre a companhia e a prefeitura de Belo Horizonte. Sendo Belo Horizonte o maior cliente da Copasa, os termos desse acordo podem servir como modelo para outras cidades do estado. Investidores interessados, como a Sabesp, têm destacado a relevância desse contrato para a avaliação da empresa mineira.
De acordo com o cronograma original do governo de Romeu Zema, a privatização deveria ser lançada até o fim do primeiro trimestre de 2026, antes do início do período eleitoral. Para atender a essa meta, a administração da Copasa tem realizado diversas reuniões nas últimas semanas com a prefeitura da capital e outros municípios mineiros, visando agilizar a negociação.
Os novos contratos deverão incluir as metas de universalização, que o governo mineiro exige como condição para a venda da estatal, modelo similar ao adotado pela Sabesp em São Paulo.
Negociações em fase final, mas sem resultados concretos
A presidente da Copasa, Marília Carvalho de Melo, informou durante a teleconferência sobre os resultados do 4º trimestre de 2025 que a renovação do contrato com Belo Horizonte está em “fase final de trâmites”, embora ainda não haja definições. “Estamos dialogando com todos os municípios. Definimos uma frente estratégica com os 80 principais”, afirmou Marília. A estatal atende 636 cidades em Minas Gerais e também busca incluir contratos de esgoto em localidades que atualmente contam apenas com contratos de fornecimento de água.
Carlos Piani, CEO da Sabesp, declarou recentemente que a empresa está interessada na Copasa, mas ressaltou que a definição do contrato com Belo Horizonte é “crítica” para avaliar o negócio. Ele apontou que a forma como a licitação será estruturada pode impactar o apetite da empresa, dependendo de favorecer o mercado ou investidores estratégicos.
Conforme Piani, o processo está avançando lentamente, principalmente nas negociações referentes à concessão da capital, que representa cerca de 40% da receita da Copasa.
Modelo paulista como referência para Minas Gerais
O CFO da Sabesp, Daniel Szlak, fez uma comparação com a situação em São Paulo, onde, após a privatização, 371 dos 375 municípios se uniram em um consórcio com regras unificadas. Em contrapartida, a Copasa não seguiu esse modelo. Segundo Szlak, o contrato de Belo Horizonte deverá servir como referência para futuras renovações com outros municípios mineiros. “Quanto mais claras forem as regras, mais fácil será atribuir valor ao negócio e tomar decisões assertivas”, destacou em entrevista à Broadcast.
Especialistas do setor corroboram essa visão. Rafael Dias, analista da BB Investimentos, mencionou em um relatório que a principal definição pendente para destravar o processo é a negociação da prorrogação do contrato com a capital mineira.
Perspectivas financeiras e impactos no mercado
O contrato de concessão de Belo Horizonte é crucial na discussão sobre a avaliação de valor da Copasa, segundo o advogado Victor Hugo Scandalo Rocha, da Rocha & Rocha Advogados. Ele enfatizou que qualquer falta de clareza sobre o modelo regulatório ou os termos de renovação pode impactar diretamente as projeções de fluxo de caixa futuro. “Sem uma análise clara e um processo licitatório estruturado, o risco percebido aumenta, o que tende a desestimular investidores estratégicos, como a Sabesp”, afirmou Rocha.
A privatização da Copasa deve impulsionar um movimento significativo no mercado de ações da Bolsa brasileira, especialmente no setor de saneamento. A operação pode movimentar entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões, conforme apurado por fontes do setor. O modelo proposto é semelhante ao follow-on (oferta subsequente de ações) que a Sabesp utilizou em 2024 e prevê a participação de um investidor estratégico adquirindo até 30% da companhia mineira. Entre os potenciais investidores estão a Sabesp, Aegea, Equatorial, Veolia e fundos de infraestrutura como o Perfin, que já investe na Copasa, além do canadense CPP.
Em nota, a Copasa informou que, atualmente, está em um período de silêncio e não pode se manifestar ou conceder entrevistas sobre quaisquer aspectos que possam influenciar a análise dos investidores ou afetar a paridade de informações no mercado.
