O Aumento das Importações e Seus Efeitos
Belo Horizonte – A recente explosão nas importações de morango congelado do Egito pelo Brasil tem gerado preocupação entre os produtores de Minas Gerais, estado que se destaca na produção dessa fruta. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) revelam que as importações saltaram de 2,2 mil toneladas em 2022 para impressionantes 35,9 mil toneladas em 2025, registrando um aumento de 1.400% no período.
O morango congelado, que geralmente é menor e possui menor valor agregado se comparado ao morango in natura — a variedade mais consumida no varejo e utilizada em doces e sobremesas —, é destinado principalmente para a indústria de processamento de alimentos. Normalmente, a proporção da produção destinada ao congelamento varia entre 10% e 20%, de acordo com a Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (FAEMG) e relatos de agricultores locais.
Impactos no Mercado Local
Em 2025, o Egito foi responsável por cerca de 85% das importações brasileiras de morango, enquanto outras variantes da fruta, além da congelada, contribuíram com uma parcela muito reduzida das compras externas. Esse cenário se intensificou após a implementação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Egito, efetivado em 2017, que estabeleceu uma redução progressiva de impostos sobre o morango, com a previsão de zerar a tarifa até setembro de 2026.
Os produtores brasileiros têm notado uma diminuição no interesse dos compradores pelo morango congelado, especialmente no último ano. Denis Dias, um agricultor de Alfredo Vasconcelos, na região mineira de Campos das Vertentes, mencionou que tem enfrentado dificuldades em manter os preços competitivos. Ele possui três freezeres de 525 litros e estava avaliando a compra de uma câmara fria por R$ 50 mil, mas acabou desistindo devido à incerteza do mercado.
“O preço do morango congelado caiu significativamente. Em novembro de 2025, vendíamos a R$ 10 o quilo, mas agora já cai para R$ 6”, relata Dias. O preço do morango in natura também sofreu rebaixamentos, de R$ 25 o quilo durante o Natal para cerca de R$ 10 atualmente. O custo médio de produção é de R$ 4,50 por quilo, enquanto o morango congelado egípcio entrou no Brasil com um custo médio de US$ 1 (R$ 5,16) por quilo, segundo dados do MDIC.
Desafios para Pequenos Produtores
Outra produtora, Solange Tomaz, de Ipiúna, no sul de Minas, mencionou que o morango congelado costumava ser uma alternativa viável em momentos de queda nos preços do morango in natura. Entretanto, com a redução da demanda da indústria, essa opção pode estar se esvaindo. Assim como Solange, aos 11.729 pequenos agricultores mineiros que representam 96% da produção de morango no estado, a situação é alarmante.
A analista de agronegócios da FAEMG, Mariana Marotta, enfatiza a necessidade de observância ao tema, especialmente diante de uma possível abertura de processo de antidumping relacionados ao morango egípcio. Ela lembra do trâmite que envolve as importações de leite em pó do Uruguai e Argentina, que está sendo investigado há dois anos por práticas de comércio desleal. “Se um processo similar for iniciado com o morango, muitos produtores, que geralmente dependem exclusivamente dessa cultura, poderão enfrentar sérias dificuldades”, alerta Marotta.
No comércio internacional, a prática de dumping refere-se à venda de produtos a preços inferiores aos do mercado interno, o que pode resultar em concorrência desleal para os produtores locais. Geralmente, essa situação é analisada por autoridades comerciais, que podem implementar tarifas antidumping para proteger a indústria nacional.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que já solicitou direitos antidumping para o leite em pó, afirmou que está avaliando a situação envolvendo as importações de morango congelado. Essa análise é crucial para garantir a segurança econômica dos agricultores brasileiros que enfrentam um mercado cada vez mais desafiador.
