A missão de Faryal Khan na UFU
Quando entrei no laboratório da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em outubro de 2025, não esperava ser recebida por uma cientista com véu sob o jaleco. Essa foi a primeira impressão ao conhecer Faryal Khan, uma paquistanesa de 30 anos que chegou ao Brasil há pouco tempo para cursar o doutorado no Programa de Pós-graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas, sob a orientação do professor Robinson Sabino da Silva. A pesquisa que ela desenvolve, focada na detecção de metanol em bebidas alcoólicas, já atraiu a atenção nas redes sociais, gerando mais de meio milhão de visualizações durante a crise sanitária no país.
A troca entre nós iniciou-se em inglês, marcada por uma simpatia mútua, e logo percebi que sua trajetória era muito mais do que apenas acadêmica. Nascida em Kohat, uma cidade que significa “um vale cercado por colinas”, Faryal é a filha mais velha em uma família de cinco, composta por duas irmãs e dois irmãos. Com graduação em Microbiologia e mestrado em Microbiologia Médica pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Kohat, Faryal já tem publicações nas áreas de nanotecnologia, segurança alimentar e saúde pública, além de experiência como professora de ciências e biologia.
Desafios e apoios na busca pela educação
A mudança para Uberlândia representa sua primeira experiência fora do Paquistão. Ela é bolsista do Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras e atualmente pesquisa métodos para detectar doenças precocemente através da saliva, utilizando uma ferramenta de diagnóstico que promete ser rápida, confiável e repetível. Durante nossa conversa, compartilhei com Faryal a minha surpresa sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres paquistanesas no acesso à educação. Ela confirmou que, embora enfrente esses obstáculos, sua família sempre a apoiou, o que fez toda a diferença em sua trajetória.
Segundo o censo de 2023, apenas 9,4% da população total do Paquistão possui ensino superior, e essa estatística revela uma alarmante desigualdade geográfica. Embora atualmente exista uma paridade de gênero no número de matrículas em universidades, as mulheres em áreas urbanas têm mais oportunidades do que aquelas em regiões rurais. Fatores como casamentos infantis, escassez de escolas para mulheres, falta de transporte seguro, pobreza e conflitos extremistas complicam ainda mais a situação. A ativista Malala Yousafzai, uma das paquistanesas mais reconhecidas mundialmente, luta pelos direitos à educação das meninas, simbolizando a resistência e a força da mulher em busca de igualdade e oportunidades.
Encontro com a ciência e o futuro da pesquisa
Ao descobrir a presença de uma pesquisadora como Faryal na UFU, imediatamente pensei na série “Mulheres e Meninas na Ciência”, promovida anualmente pela Divisão de Divulgação Científica. Esta iniciativa realiza perfis de mulheres na ciência e coincide com as datas significativas do Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, e o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.
No dia da nossa conversa, convidei Faryal para participar da série e ela aceitou imediatamente. Em nossa entrevista, Faryal se apresentou, destacando sua formação e a importância da pesquisa no contexto da saúde humana. “Sou motivada por pesquisas que possam gerar impacto no mundo real”, afirmou. Durante a infância, lembra-se de ter se encantado pelo trabalho de Florence Nightingale e por desenhos animados que retratavam mulheres em posições de destaque científica, o que despertou seu desejo de contribuir para o bem-estar da sociedade.
Desafios e a importância de inspirar futuras gerações
A rotina de uma cientista, segundo Faryal, é intensa e exige atenção a cada detalhe. “É uma vida ocupada, mas é crucial manter o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional”, relatou. Quando questionada sobre as dificuldades que as mulheres enfrentam em suas carreiras na ciência, Faryal apontou as barreiras sociais e culturais, além da falta de representatividade e oportunidades de liderança. Para ela, é vital que as escolas tornem a ciência mais acessível e interessante para meninas, e que instituições ofereçam suporte efetivo e bolsas de estudo exclusivas para mulheres.
Planos para o futuro e impacto no Paquistão
Faryal tem grandes sonhos. Ela deseja seguir um pós-doutorado, algo incomum para mulheres em seu país, e voltar ao Paquistão para desenvolver capacidades locais de pesquisa, organizando seminários e workshops voltados para mulheres. “Quero mostrar que, se uma mulher se educa, ela pode moldar a sociedade”, afirmou, enfatizando a importância da educação feminina para o futuro do país. Sua história é um exemplo inspirador não apenas para suas conterrâneas, mas para todas as mulheres que buscam resistência e oportunidades em suas trajetórias científicas.
