Um Mergulho na Tradição e Calma de Guaranésia Durante a Semana Santa
Recentemente, retornei a Minas Gerais para passar a Semana Santa. Não me refiro à Minas das grandes cidades, como Belo Horizonte, ou das médias, como Poços de Caldas. Meu destino foi uma pequena localidade que ainda mantém viva a essência da mineiridade: Guaranésia, com seus 20 mil habitantes, localizada em um coração cafeeiro do estado. Esta cidade, em algum momento de sua história, decidiu desacelerar seu crescimento.
As procissões ainda ocorrem, mas com uma presença bem reduzida. Parte significativa dos antigos fiéis foi atraída por denominações evangélicas, que oferecem algo que muitos consideram que a Igreja Católica deixou escapar: uma sensação de acolhimento, companheirismo e apoio espiritual diário.
Em minha visita, não pude ouvir o Canto de Verônica — uma tradição que, na minha infância, me causava uma sensação quase palpável, como se a dor ritualizada transcendesse o tempo. Também não participei da Missa de Páscoa. Cheguei no feriado, perdendo o ensaio do coral que aconteceu na quinta-feira anterior. Essas pequenas ausências, para quem vive no interior, carregam um simbolismo profundo.
Contudo, o ritmo cotidiano da cidade permanece inalterado — e é esse compasso que sustenta a verdadeira mineiridade. O tradicional “Deus te abençoe”, proferido como uma despedida corriqueira, ainda desempenha o papel de um selo cultural, um carimbo invisível que representa pertencimento e comunidade.
Em uma busca por um teclado de computador, parei meu carro no meio da rua para consultar o Google Maps. Quando percebi, havia um veículo atrás de mim — parado, paciente, sem buzinas, sem gestos apressados, apenas aguardando. Essa cena ilustra bem o espírito tranquilizador da cidade.
Em outra ocasião, estacionei na frente de um supermercado e pedi informações a um cliente que estava na fila. Ele prontamente chamou o atendente, que abandonou seu posto para me ajudar, mesmo com a fila de pessoas à espera. Ninguém na fila parecia incomodado; não havia qualquer sinal da ansiedade típica das grandes urbes.
Essa tranquilidade me fez recordar de um verso de Carlos Drummond de Andrade: ‘Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar.’ Curiosamente, hoje, a dinâmica se inverteu. Antes, o conhecimento e as discussões culturais estavam restritos às metrópoles, enquanto agora cabem na palma da mão. Em Guaranésia, a família da minha esposa debate temas que vão de Trump a crises no Irã e à política brasileira. O mundo se condensou em um único celular.
As palavras de Drummond ressoam: ‘Mundo, mundo, vasto mundo’ — que outrora foi verso, agora se transformou em notificação. Assim, surge um contraste quase surreal: a velocidade estonteante de um planeta envolto em tensões — guerras, crises, ameaças — repousa sobre uma cidade que caminha em um ritmo mais lento. Para os moradores, as crises parecem distantes, como um enredo de novela na televisão ou no celular.
Como se tudo isso não tivesse repercussões profundas. Como se aquela calma não pudesse ser abalada. E, talvez, o que mais impressiona nesse cenário é a possibilidade de existir um lugar onde o tempo ainda é respeitado. Um espaço onde, mesmo com o mundo à beira de convulsões, alguém ainda consiga dizer, com simplicidade:
‘Vai com Deus.’
