Revisão da história de Chica da Silva no palco
Distante da representação marcada pela sensualidade da Xica da Silva interpretada por Zezé Motta no filme restaurado de 1976, dirigido por Cacá Diegues, e das controvérsias em torno da personagem de Taís Araújo na novela da TV Manchete, a nova ópera “Chica da Silva” propõe um olhar diferente. A produção que estreia no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, busca desvendar a humanidade por trás do mito, retratando uma mulher negra com suas contradições e conquistas em meio a um contexto histórico complexo.
No palco, a trama revela uma história de amor marcada pelos conflitos raciais e econômicos do século 18, além das nuances do legado de Chica, descrita pela poetisa Cecília Meireles como “a Chica da Silva, a Chica-que-manda”. A estreia ocorre neste sábado, com apresentações previstas para segunda e quarta-feira. Uma versão abreviada, intitulada “Chica em Diamantina”, já foi apresentada em praça pública na cidade histórica de Diamantina.
Libreto que humaniza a personagem
O cineasta Marcos Bernstein, que assina o libreto ao lado de Flávia Bessone, explica que a obra busca tensionar a visão popular sobre Chica com possíveis desejos e angústias da própria personagem. Bernstein, conhecido por trabalhos como “Meu Pé de Laranja Lima” (2013) e “Central do Brasil” (1998), destaca que a narrativa explora a trajetória de uma mulher que, mesmo diante das limitações da época, alcançou o melhor que podia.
“Nossa ideia é construir a história de uma mulher que viveu nessas condições e conseguiu o melhor que ela podia alcançar dentro deste contexto”, comenta o libretista. “É uma história com emoção, tanto dentro das conquistas quanto dentro das armadilhas, que tenta humanizar essa figura.”
Leia também: Salão Especializado em Cabelos Cacheados Faz Sucesso em Belo Horizonte
Leia também: Adriana Araújo: A Rainha do Samba de Belo Horizonte e sua Trajetória Inspiradora
Contexto histórico e relações pessoais
Chica da Silva nasceu entre 1731 e 1735, filha de um pai branco e uma mãe escravizada africana. Ela viveu o auge do ciclo de extração de diamantes em Diamantina, então conhecida como Arraial do Tejuco. Foi alforriada pelo contratador João Fernandes de Oliveira, com quem manteve uma união estável por 17 anos, apesar da impossibilidade legal de casamento oficial. Juntos, tiveram 13 filhos, todos reconhecidos pelo nome do pai.
O tenor Ewandro Stenzowski, que interpreta João Fernandes na montagem, ressalta a importância de reconhecer a relação amorosa para compreender quem foi Chica: “Qualquer tentativa de apagar o relacionamento amoroso deles é também uma tentativa de apagar quem, na verdade, foi a Chica”.
Desafios do relacionamento interracial na ópera
O primeiro ato da ópera enfatiza os obstáculos enfrentados pelo casal em um contexto racial e social adverso. Em uma das canções, o contratador expressa sua atração pelo olhar altivo e o amor-próprio de Chica, questionando se ela ainda o desejará após a libertação. A dúvida se dissolve em um dueto que simboliza a declaração de amor, enquanto um sol ilumina a cena no momento em que Chica recebe sua carta de alforria. Eles saem de mãos dadas, representando a união fortalecida.
Conexões pessoais da protagonista com a atriz
A soprano paulista Marly Montoni, que dá vida à personagem-título, compartilha que sua experiência pessoal contribuiu para a construção da personagem. Também filha de mãe negra e pai branco, e vivendo um relacionamento interracial, Montoni encontrou na própria história elementos para compor Chica. “A Chica, em certos aspectos, sou eu. Não vou dizer que foi fácil, mas eu tinha muito material para poder compor essa mulher”, afirma.
Leia também: Carnaval de Belo Horizonte: Programação Diversificada Até Terça-feira (17) Atraí Todos os Foliões
Leia também: Banda de Pagode de Belo Horizonte Retoma Parceria com Ivete Sangalo em Evento Imperdível
Ficção e história em diálogo
Embora o libreto se apoie em pesquisas históricas, como a biografia da historiadora Júnia Ferreira Furtado, lançada em 2003, o elenco reforça que a ópera utiliza a ficção para intensificar o drama e abordar temas que ainda ecoam na sociedade atual. A soprano destaca que Chica tornou-se uma lenda por seus feitos em uma época marcada por resistências raciais e sociais. “Se até hoje pessoas ainda resistem em ver pessoas não brancas em outros lugares de poder, imagina naquela época”, observa.
Elementos afro-brasileiros na montagem
A direção cenográfica, assinada por Julianna Santos, incorpora referências da cultura afro-brasileira para homenagear Chica da Silva. O congado e a capoeira aparecem em músicas e coreografias, misturando tradições clássicas com expressões culturais negras. O cenário traz “adinkras”, símbolos africanos presentes em construções históricas, ressaltando a influência africana na formação do país.
“A gente traz as marcas dessa cultura que, na época, foi silenciosa, para o primeiro plano do projeto, com referências de quem, de fato, construiu esse país”, explica Santos.
Equipe e contexto da produção
A ópera tem direção-geral de Cláudia Malta, música de Guilherme Bernstein e direção musical e regência de André Brant. A montagem integra as celebrações dos 55 anos do Palácio das Artes e reforça o compromisso do espaço com produções que valorizam a cultura mineira, seguindo o caminho aberto por trabalhos como “Aleijadinho”, apresentado em 2022.
