A Dependência da IA e Seus Riscos
A inteligência artificial (IA) se tornou uma ferramenta essencial na categorização e análise de dados, mas também suscita preocupações sobre a dependência cognitiva que pode levar ao chamado “emburrecimento”. Segundo Marcelo Gleiser, renomado físico e filósofo, essa tendência pode resultar na perda da habilidade humana de contar histórias. Ele destaca que, para a inovação ser eficaz, deve ser vista como parte de um “quarteto existencial”, que inclui ciência, filosofia, espiritualidade e artes. “Se não formos bem apoiados nesses quatro pilares, a estrutura se torna instável”, alerta.
Gleiser está entre os curadores do São Paulo Innovation Week (SPIW), um festival focado em inovação, tecnologia e negócios, que acontecerá em maio em São Paulo, organizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. Com a expectativa de atrair cerca de 90 mil visitantes, o evento contará com palestras de especialistas de renome internacional, debates e performances artísticas. Os ingressos serão disponibilizados a partir do dia 23.
Durante uma entrevista realizada por videoconferência da sua residência na Itália, Gleiser discorreu sobre a relação entre conhecimento e inovação, enfatizando que a cada nova descoberta surgem mais perguntas. “Quando analisamos a história da ciência, percebemos que cada avanço nos proporciona um leque de questionamentos que antes não podíamos imaginar”, afirma. Ele usa como exemplo o telescópio, que mudou nossa percepção do céu e expandiu significativamente a astronomia.
Para o cientista, a IA apresenta uma nova fronteira de indagações. No entanto, ele faz uma distinção crucial: “A inteligência artificial não é um amplificador de realidade. É uma ferramenta que utiliza dados existentes, mas não inventa nada novo”. Ele acredita que sua função é auxiliar o pensamento humano, mas não substituir a criatividade e a consciência que caracterizam a natureza humana.
Gleiser não hesita em afirmar que o uso da IA pode conduzir a uma perda de capacidade narrativa. “Se confiarmos plenamente nessas máquinas para criar nossas histórias, podemos sim perder a habilidade de contar nossas próprias narrativas”, adverte. Ele relata experiências de alunos que utilizaram chatbots para escrever ensaios, observando que aqueles que fizeram o trabalho manualmente obtiveram notas melhores e aprenderam mais, evidenciando a importância do aprendizado ativo.
Além disso, Gleiser destaca a realidade do mercado de trabalho, onde a IA já começou a substituir funções humanas. Ele menciona um amigo investidor que demitiu funcionários em favor de sistemas que não se ausentam ou apresentam doenças. “Embora essas tecnologias aumentem a eficiência, a desumanização do trabalho é um risco real”, observa, ressaltando que a inteligência humana inclui a habilidade de se relacionar e interagir com outros.
Ao abordar a interseção entre ciência, filosofia e espiritualidade, Gleiser argumenta que essas áreas podem gerar inovações significativas: “A espiritualidade pode inspirar ações que buscam a preservação do meio ambiente ou outras causas sociais relevantes”. Ele reforça a necessidade de um equilíbrio entre esses pilares para evitar que a sociedade se torne instável. “Se ignorarmos uma dessas dimensões, nossa existência pode ficar desequilibrada”, conclui.
Para finalizar, Gleiser defende uma reforma curricular que integre diferentes áreas do conhecimento. Nos Estados Unidos, por exemplo, os alunos têm a oportunidade de explorar diversas disciplinas antes de escolher um foco específico. Essa abordagem pode fomentar uma visão de mundo mais ampla e diversificada, essencial para a formação de profissionais inovadores. Ele defende ainda a importância de ampliar o acesso à educação, destacando a necessidade de laboratórios e recursos adequados para crianças que, segundo ele, “nascem cientistas”. Para que a inovação seja realmente inclusiva, é fundamental fomentar iniciativas que apoiem a educação de maneira mais abrangente.
