Estabilidade e Planejamento: Chaves para o Sucesso Científico
O ranking CWTS Leiden 2025, ao contrário de outras listas que se baseiam na reputação de instituições ou na qualidade do ensino, analisa variáveis estruturais de longo prazo. Isso inclui o impacto da produção científica, a densidade das redes de colaboração e a consistência institucional. A queda da Universidade de Harvard para a terceira colocação, superada pelas universidades chinesas Zhejiang e Shanghai Jiao Tong, não é apenas uma curiosidade acadêmica; ela reflete uma transformação significativa na geopolítica do conhecimento.
A liderança da China no cenário científico global é resultado de investimentos trilionários em ciência, tecnologia e inovação ao longo das últimas duas décadas, sustentados por um planejamento estratégico e uma continuidade institucional. Nesse contexto, a ciência é tratada como uma infraestrutura de Estado, fundamental para o desenvolvimento do país.
Em ambientes onde há estabilidade orçamentária e políticas públicas coerentes, a produção científica se desenvolve de forma cumulativa, transformando conhecimento em desenvolvimento econômico e soberania tecnológica. Essa estrutura é essencial para a industrialização e para aumentar a capacidade de competir nas cadeias globais de valor.
Desafios do Brasil no Cenário Científico
No Brasil, o contraste é notável. A Universidade de São Paulo (USP) ocupa a 17ª posição no ranking, apoiada por um modelo que oferece uma previsibilidade mínima em seu orçamento. Para o exercício de 2026, a USP prevê um orçamento de aproximadamente R$ 1,33 bilhão. Em comparação, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) operará com cerca de R$ 406 milhões, um valor que está muito abaixo do necessário, já que estima-se que o mínimo necessário seja em torno de R$ 780 milhões, sem contar os déficits acumulados.
Essa situação não é uma exceção, mas sim a regra. Entre 2015 e 2022, o orçamento discricionário das universidades federais caiu de forma contínua, atingindo níveis históricos baixos em termos reais. Embora tenha havido uma recuperação parcial até 2025, essa quantia ainda é insuficiente para garantir um sistema científico que esteja à altura dos padrões internacionais.
O ciclo se repete em 2026. Durante a tramitação da Lei Orçamentária, o Congresso retirou recursos das universidades, que posteriormente foram recompostos por meio de portaria ministerial. Apesar de o alívio financeiro ter sido considerado uma solução, é importante ressaltar que recompor não é o mesmo que investir. É apenas uma maneira de evitar um colapso iminente.
A Necessidade de Investimentos Consistentes
Sistemas científicos de alto nível não funcionam por meio de ajustes pontuais. Eles requerem uma acumulação contínua de capacidades, o que inclui a formação de pessoal, a atualização de equipamentos, a manutenção de laboratórios e a cooperação internacional. Quando o financiamento é instável, projetos são interrompidos, equipamentos se tornam obsoletos e, consequentemente, o país perde seu ativo mais valioso: os cérebros altamente qualificados, formados com recursos públicos.
A distorção se aprofunda ainda mais quando o orçamento regular é substituído por emendas parlamentares. Essas verbas, além de serem marginais em volume, são fragmentadas e frequentemente politicamente carimbadas. Para que a pesquisa avançada ocorra de maneira eficaz, é essencial que haja um planejamento plurianual e uma previsibilidade financeira. Sem isso, a ciência torna-se uma espécie de infraestrutura fragilizada.
Ao comprometer a previsibilidade orçamentária, também se coloca em risco a base científica necessária para uma neoindustrialização bem-sucedida. O subfinanciamento crônico empurra o Brasil para uma dependência tecnológica que se torna permanente. Para competir em setores dinâmicos da economia global, é imprescindível ter uma base científica sólida e cultivar uma formação massiva de talentos.
O Futuro da Ciência no Brasil
O Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação possui um histórico de excelência, mantendo o Brasil entre os principais produtores de artigos científicos do mundo. No entanto, para transformar essa produção em impacto social real, a estabilidade orçamentária se torna uma condição indispensável.
O ranking de Leiden de 2025 não deve ser visto apenas como um retrato de nossa situação atual, mas sim como um alerta sobre o futuro que o Brasil precisa escolher. A dúvida já não reside em saber se o Brasil tem a capacidade de participar da economia do conhecimento, mas sim em determinar quando tomará a decisão de se engajar de forma efetiva.
Os professores Roberto Medronho, reitor da UFRJ, e Romildo Dias Toledo Filho, diretor do Parque Tecnológico da UFRJ, ambos integrantes de renomadas academias, reforçam a importância dessa discussão sobre o futuro da ciência no Brasil.
