Uma Análise Crítica Sobre a Metodologia dos Rankings
Imagine uma corrida de cavalos em que os juízes decidem o vencedor apenas com um lançamento de moeda, mas anunciam que usaram tecnologia de ponta. Essa é uma comparação pertinente para o que acontece em muitos relatórios sobre institutos de pesquisa, onde a precisão é superestimada. Para determinar a classificação de diversos institutos, os analistas se basearam em diferenças mínimas, chegando a frações como 0,3% entre o que foi previsto e o resultado final. Isso ignora completamente a margem de erro, que na maioria das pesquisas é de 2%. Quando a discrepância entre dois institutos é menor que isso, estamos diante de um empate técnico, o que significa que não faz sentido premiar um e penalizar outro por variações tão pequenas. Dar a medalha de ouro a um instituto por essa margem é um exemplo claro de ilusionismo numérico, onde a criação de um ranking se torna mais um jogo de números do que uma análise científica.
O maior problema, entretanto, reside na falta de uma visão social adequada. O relatório avaliou os institutos sob a expectativa de que eles projetassem com precisão os votos válidos no dia da eleição. Contudo, as pesquisas não têm como prever o futuro; elas capturam as intenções dos eleitores em um momento específico, como na sexta-feira anterior à votação. No Brasil, questões sociais influenciam diretamente a abstenção: os eleitores de baixa renda, com menor escolaridade e mais jovens, são os que mais faltam às urnas, muitas vezes por questões logísticas ou financeiras. Institutos tradicionais como Datafolha, Ipec e Ipespe se esforçam para captar a intenção de votação dessa população vulnerável, mas, no final das contas, esses institutos foram penalizados em um ranking que não considerou esses fatores.
Manipulação e Cegueira Social
O relatório coloca o peso da responsabilidade pela abstenção estrutural nas pesquisas, como se estas tivessem que adivinhar quantas pessoas deixariam de votar. Isso é comparável a quebrar um termômetro por ter indicado febre. Além disso, ao notar que alguns institutos mais novos, como Quaest e AtlasIntel, se destacaram nas previsões de 2022, o relatório utilizou uma ‘fórmula de encolhimento’ para reduzir suas classificações. O curioso é que a base numérica utilizada nessa fórmula não tem qualquer respaldo técnico ou científico claro, mas foi criada em meio à análise para diminuir a posição dessas empresas inovadoras.
Outro aspecto questionável do relatório é a seleção de dados para avaliar os institutos mais antigos. Com um ‘painel de robustez’ elaborado de maneira a favorecer determinados institutos, critérios arbitrários foram aplicados para aumentar o rebaixamento de empresas tradicionais que possuem um histórico consolidado de acertos, como Sensus e Vox Populi. Esse fenômeno, conhecido no mundo acadêmico como cherry-picking, refere-se à prática de escolher apenas os dados que sustentam uma tese específica, ignorando contextos históricos relevantes.
Questões Éticas e Consequências para a Democracia
A fragilidade matemática do estudo é apenas um aspecto da questão; a sua ética é ainda mais alarmante. A instituição que assina o relatório é financiadora de pesquisas do Instituto FSB e de outro chamado Nexus, que frequentemente têm seus resultados divulgados na mídia. No entanto, esses institutos não estão nem mesmo presentes no ranking apresentado. Ao excluir deliberadamente empresas que realizam pesquisas em nome do próprio contratante, o estudo se distancia do que poderia ser uma avaliação independente, transformando-se em uma ferramenta de marketing.
Esse tipo de relatório prejudica a democracia ao incentivar práticas questionáveis no mercado. Ele promove o chamado ‘efeito manada’, que premia empresas que manipulam dados de última hora para melhorar sua imagem, enquanto pune aquelas que se dedicam a uma pesquisa rigorosa e contínua da sociedade. Tentar reduzir a complexidade do voto e a realidade da abstenção a uma simples planilha fria é uma irresponsabilidade imensa. Pesquisas de opinião são essenciais para entender a sociedade e devem ser tratadas com a seriedade que merecem.
