Entenda a Relação entre Pesquisa Científica e Tratamentos Comprovados no Brasil
A discussão sobre a polilaminina deve ser conduzida com calma e responsabilidade. Originada nas universidades públicas brasileiras, essa pesquisa merece reconhecimento, já que o Brasil se destaca por sua ciência de qualidade. Nossas instituições educacionais são fundamentais para a inovação biomédica no país, onde se produz conhecimento original, forma-se novos pesquisadores e se constrói a soberania científica. Porém, é crucial compreender a diferença entre uma pesquisa promissora e um tratamento comprovado efetivamente.
No âmbito da neuroregeneração, a transição de uma descoberta laboratorial para um medicamento disponibilizado ao paciente é um processo longo e complexo. Esse percurso exige estudos pré-clínicos, ensaios clínicos controlados, comparação com placebos ou tratamentos padrão, análises estatísticas rigorosas e um monitoramento de segurança contínuo. Não é uma questão de burocracia, mas uma medida de proteção às pessoas.
O papel das instituições, nesse contexto, é fundamental. A Anvisa, por exemplo, não deve ser vista como um entrave à inovação, mas sim como a guardiã da segurança sanitária. Sua função é avaliar, com base em dados consistentes, a qualidade, eficácia e segurança de medicamentos e terapias antes que possam ser registrados. Da mesma forma, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) possui uma função vital: após o registro, ela determina se a nova tecnologia deve ser incorporada ao Sistema Único de Saúde, levando em conta a evidência clínica e o custo-efetividade. Assim, temos um processo claro: primeiro se comprova que a terapia é funcional e segura, para então decidir se deve ser amplamente disponibilizada à população.
Entre a pesquisa inicial em laboratórios e a incorporação ao sistema público, existe um trajeto estruturado que envolve fases pré-clínicas, ensaios clínicos em fases I, II e III, submissão regulatória, registro sanitário e avaliação de tecnologia em saúde. Essa arquitetura institucional, que combina ciência acadêmica sólida, regulação técnica independente e avaliação transparente, caracteriza um sistema robusto de ciência, tecnologia e inovação, comprometido com o interesse público. Fragilizar qualquer um desses elementos não acelera o progresso; pelo contrário, aumenta o risco. O Brasil precisa investir no fortalecimento desse ecossistema, e não em contorná-lo.
A medicina moderna se fundamenta em estudos controlados, pois a percepção individual pode ser enganosa. Melhoras espontâneas são possíveis, doenças têm evolução variável e o efeito placebo é real. Somente por meio de protocolos metodológicos rigorosos é que conseguimos provar se uma intervenção é realmente eficaz e segura. Ignorar essa etapa é abandonar o próprio método que sustenta a medicina.
O Brasil já enfrentou situações semelhantes. A defesa da cloroquina como solução para a Covid-19 foi um exemplo claro da necessidade de evidências consolidadas antes da adoção de um tratamento. Estudos clínicos posteriores demonstraram que a cloroquina não trazia benefícios significativos, além de apresentar riscos, como arritmias cardíacas. O resultado desse episódio foi uma polarização intensa, desgaste das instituições e a exposição desnecessária de pacientes a riscos.
Outro caso emblemático foi o da denominada “pílula do câncer”, a fosfoetanolamina sintética. Celebrada como uma esperança nacional, a substância foi judicializada e distribuída em meio a uma forte comoção social, mas não demonstrou benefícios clínicos consistentes quando submetida a estudos controlados. A ciência teve que reafirmar a verdade: a intenção não substitui a evidência. Esses episódios não são apenas controvérsias; são lições cruciais sobre a importância da responsabilidade na comunicação científica.
É aceitável afirmar que uma pesquisa é promissora em um ambiente labora- torial, mas não se deve apresentá-la como uma terapia eficaz sem a comprovação clínica. Quando essa linha é cruzada, cria-se uma expectativa que pode ser cruel para aqueles que mais precisam. A cautela não é sinônimo de frieza, mas sim um sinal de respeito pelo paciente.
Além disso, a judicialização de tecnologias experimentais fragiliza o sistema regulatório e estabelece precedentes perigosos. O Judiciário não pode substituir as agências sanitárias, e a opinião pública não deve sobrepujar as revisões por pares. A ciência não pode ser apressada por aplausos ou pressões externas.
Essa abordagem não deve ser vista como um desprezo à inovação. Muito pelo contrário. Os países que lideram a biotecnologia mundial constroem seus avanços a partir de universidades sólidas, proteção intelectual e agências reguladoras competentes. Por exemplo, as vacinas de RNA mensageiro não surgiram de pressões sociais, mas sim de décadas de pesquisa básica seguidas por validações rigorosas.
O Brasil possui uma capacidade científica considerável, conta com pesquisadores talentosos e universidades públicas que são um patrimônio nacional. O que devemos fortalecer é a etapa de validação clínica, que integra pesquisa, hospitais, indústrias e regulação. Se a polilaminina tem potencial, que seja estudada com rigor. Se for realmente eficaz, que os dados comprovem isso.
Caso seja segura, que as evidências sustentem sua eficácia. A verdadeira inovação não teme o escrutínio científico; pelo contrário, depende dele. Um país que busca se destacar na saúde não pode optar por atalhos, pois, na medicina, a pressa não salva.
