Exploração do Tema Pseudociência
No livro “Ciência e pseudociência: por que acreditamos apenas naquilo em que queremos acreditar”, Ronaldo Pilati, professor da Universidade de Brasília (UnB), analisa como o pensamento científico pode atenuar o viés de confirmação, que é a tendência de buscar evidências que sustentem nossas crenças, ignorando dados contrários.
Um exemplo emblemático da crença em pseudociências ocorreu em 1997, quando membros da seita americana Heaven’s Gate, acreditavam que o fim do mundo se aproximava. Eles estavam certos de que seriam resgatados por uma espaçonave que seguiria o cometa Hale-Bopp. Para comprovar suas crenças, adquiriram um telescópio e o apontaram na direção do cometa. No entanto, nenhum sinal de nave foi registrado. Estranhamente, ao invés de reconsiderarem suas crenças, retornaram à loja para devolver o telescópio, alegando que o problema não estava em sua fé, mas na falha do instrumento que não conseguiu captar a evidência que procuravam.
A narrativa, que ilustra perfeitamente a temática do livro, mostra a resistência à mudança de crenças quando estas estão enraizadas. A obra de Pilati nos convida a refletir sobre a fragilidade das crenças humanas e as armadilhas cognitivas que essas podem gerar. O professor, que atua no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, busca entender como as crenças são formadas e sustentadas.
A Indispensável Diferença entre Ciência e Pseudociência
Durante nossa conversa, Pilati discutiu a necessidade de aumentar a produção de informações científicas com uma linguagem acessível ao público geral. Ele menciona Carl Sagan, um ícone da divulgação científica, que já alertava sobre os riscos da disseminação de explicações pseudocientíficas e da irracionalidade na sociedade. O professor enfatiza que a compreensão dos princípios básicos da cognição humana é fundamental para distinguir entre ciência e pseudociência.
O livro destaca a importância da “falseabilidade”, um conceito desenvolvido pelo filósofo da ciência Karl Popper nos anos 30. Segundo Pilati, a possibilidade de refutar uma teoria é um dos pilares que definem o que é ciência. Teorias pseudocientíficas, por outro lado, frequentemente não podem ser testadas ou refutadas, o que as coloca fora do domínio científico.
Como a Cognição Influencia Nossas Crenças?
Para Pilati, a cognição é o mecanismo que usamos para interpretar a realidade ao nosso redor. Uma afirmação como a de alguém que mantém contato com um extraterrestre invisível não pode ser provada ou refutada, e, portanto, não é científica. Afirmações que não podem ser testadas, como a crença em uma vida após a morte, são também consideradas infalíveis e, consequentemente, não científicas. O autor ressalta que, apesar de a falseabilidade ter passado por revisões, ela ainda é um conceito respeitado na filosofia da ciência.
A ciência, ao contrário de sistemas de crenças absolutas, opera em um campo de incertezas. À medida que novas evidências surgem, teorias podem mudar. Pilati menciona que essa transitoriedade pode ser difícil de aceitar para muitas pessoas, que preferem verdades mais estáveis e previsíveis. O autor destaca que essa necessidade de certezas pode levar à preferência por crenças que oferecem conforto emocional.
O Que é o Viés de Confirmação?
O viés de confirmação é um conceito relevante discutido no livro. Quando nutrimos antipatia por alguém ou algo, frequentemente buscamos informações que corroboram nossas crenças negativas, sem checar a veracidade. Da mesma forma, tendemos a compartilhar opiniões positivas sem investigar. Pilati enfatiza que o método científico pode nos ajudar a escapar dessa armadilha cognitiva. Acreditar somente no que queremos acreditar mina nossa compreensão da realidade e fortalece preconceitos.
Ele afirma que o pensamento científico permite uma análise crítica que evita a validação de ideias errôneas. “O exercício de reconhecer que podemos estar enganados é fundamental para uma melhor compreensão da realidade”, conclui Pilati, ressaltando a importância de questionar nossas crenças para um entendimento mais racional do mundo.
