Modalidade de pagamento ressurge como alternativa para consumidores endividados
No início deste ano, um levantamento realizado pela Fecomércio-MG indicou uma leve diminuição na inadimplência em Belo Horizonte. De acordo com os dados, a redução foi de apenas 0,1% em janeiro, um número praticamente insignificante em termos de impacto.
O que continua a ser um grande desafio para os consumidores locais é o cartão de crédito. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) revela que, em janeiro, 96,3% das pessoas endividadas na capital mineira possuíam dívidas nessa modalidade. Especialmente as famílias com rendimentos de 10 salários mínimos ou mais mostraram um comprometimento alarmante, com 99,2% delas endividadas com cartões.
Diante desse cenário, uma solução antiga, mas eficaz, começa a ganhar força novamente no comércio: o carnê, que oferece crediário direto nas lojas.
Retorno do Carnê no Cenário Atual
Os dados da Fecomércio-MG indicam um aumento considerável no uso do carnê como forma de pagamento. Em janeiro de 2019, essa modalidade correspondia a 21,6% das dívidas dos consumidores, mas caiu para 13% em 2020, refletindo a crescente adesão ao cartão de crédito. No entanto, após a pandemia, a situação mudou drasticamente. Em janeiro de 2024, 27,4% das famílias endividadas optaram pelo carnê, número que já atinge 30,6% atualmente.
A economista Gabriela Martins, da Fecomércio-MG, afirma que o uso excessivo do cartão de crédito para gastos do dia a dia tem prejudicado o poder de compra dos consumidores, especialmente na aquisição de bens duráveis, como eletrodomésticos e eletrônicos.
“Estamos observando um aumento significativo no uso do carnê. Isso indica que muitos consumidores estão com o crédito do cartão comprometido e, ao necessitar de itens com maior valor, não possuem margem suficiente para novas compras. Assim, recorrem ao carnê, que é frequentemente oferecido diretamente pelas lojas de varejo”, explica Martins.
Conservando o Fluxo de Vendas
A modernização dos métodos de compra, como e-commerce, pagamentos online e o uso do Pix, fez com que o varejo, por um tempo, deixasse o carnê em segundo plano. Este sistema permite que o cliente tenha visibilidade do valor exato de cada parcela do crediário, facilitando o planejamento financeiro.
Empresas como Casas Bahia e Magazine Luiza prosperaram com esse modelo durante anos, utilizando-o como uma estratégia de fidelização. A ideia era que, ao manter um bom nome no comércio, o consumidor sempre teria crédito disponível para novas aquisições. Restabelecer essa confiança é um objetivo crucial para o comércio, especialmente para aqueles que não podem mais contar com o cartão de crédito ou pagamentos à vista.
“Quando a maioria das famílias está com a renda comprometida e, muitas vezes, sem crédito disponível, a busca pelo carnê se torna imprescindível. Os varejistas estão incentivando essa modalidade para não perder vendas e clientes. Mesmo com juros elevados, essa opção mantém o consumidor ativo no mercado”, acrescenta a economista.
Atenção ao Uso do Carnê
Embora o carnê possa parecer uma solução conveniente, ele apresenta armadilhas que podem agravar a situação financeira do consumidor. A economista Gabriela Martins faz um alerta: os juros aplicados nesta modalidade costumam ser altos, e os compromissos de longo prazo podem aprofundar o endividamento dos clientes que já estão lutando para equilibrar as contas.
Essa mesma armadilha que afeta o consumidor pode também prejudicar o comerciante. Um nível excessivo de endividamento ou uma inadimplência em larga escala pode impactar diretamente as vendas.
“Famílias com dívidas elevadas tendem a ser mais cautelosas ao realizar novas compras, e os consumidores inadimplentes frequentemente não conseguem acessar nenhum tipo de crédito. O carnê serve como uma ponte que os lojistas encontraram para se aproximar desses clientes e concretizar vendas”, conclui Martins.
