Reflexões sobre o papel da ciência e a urgência por financiamentos adequados
Como professor e pesquisador em uma universidade pública brasileira, tenho observado, com crescente preocupação, a luta contínua pela valorização e financiamento da ciência nacional. Recentemente, o uso da polilaminina no tratamento de lesões na medula espinhal tem gerado intenso debate tanto na mídia quanto nas esferas políticas. Esse recente movimento revela a fragilidade dos nossos diálogos públicos sobre ciência.
A repercussão em torno da polilaminina começou a ganhar força após o Ministro da Saúde ter se manifestado sobre um vídeo onde Tulianne, filha do ex-jogador Túlio Maravilha, expressava sua preferência por estudar em uma faculdade privada, alheia ao contexto público, que, segundo ela, não se adequava aos valores da sua família. O ministro, em resposta, destacou a suposta eficácia da terapia com polilaminina, proveniente de uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, como uma justificativa poderosa para a importância do investimento nas universidades públicas. Essa defesa foi rapidamente seguida por reuniões com a pesquisadora responsável pelo estudo e até mesmo elogios de figuras políticas da oposição à ciência e à educação pública brasileira.
Embora seja essencial defender o ensino público e o financiamento das pesquisas científicas, é preciso, no entanto, aprofundar o debate sobre o financiamento da ciência. Vincular todo um sistema de pesquisa à expectativa de um “milagre” médico, a curto prazo, pode ser uma abordagem arriscada.
A Cautela do Método Científico
A prática científica não se resume a uma visão otimista ou a discursos políticos apaixonados; ela exige rigor e meticulosidade. No caso da polilaminina, existem fundamentos que justificam o ceticismo. Como cientistas, somos formados para investigar relações de causa e efeito. Quando um paciente com lesão medular demonstra melhora motora, cabe questionar se essa evolução se deve à substância administrada ou se é o resultado natural da neuroplasticidade, estimulada por um tratamento fisioterapêutico intenso.
Até que sejam conduzidos ensaios clínicos rigorosos, com grupos de controle adequados, a hipótese de que a polilaminina não apresenta efeito positivo — e que os pacientes poderiam melhorar apenas com a reabilitação física — não deve ser desconsiderada. Historicamente, essa abordagem cautelosa tem sido a norma na ciência.
O Risco do Utilitarismo Científico
O episódio envolvendo o ministro e a filha do ex-jogador destaca a vulnerabilidade de como justificamos a ciência para a sociedade. Quando políticos utilizam a polilaminina como exemplo de sucesso para justificar demandas por mais recursos, perpetuam uma visão utilitarista da pesquisa.
Essa perspectiva sugere que a universidade pública e a ciência só têm valor se gerarem resultados imediatos, um produto de prateleira ou um benefício tangível a curto prazo. Isso desconsidera a essência da atividade científica: a pesquisa básica. A maioria dos cientistas é guiada pelo desejo de entender a vida, o universo e seus complexos desafios. O financiamento não pode ser condicionado a promessas de curas milagrosas que são utilizadas como retórica em debates nas redes sociais. Ele deve existir porque a busca pelo conhecimento é perene e porque a soberania de um país está diretamente relacionada à sua capacidade de formar mentes críticas e compreender a natureza.
Impactos na Opinião Pública
Quais serão as consequências se os resultados iniciais da polilaminina não se confirmarem em estudos amplos? Construir o apoio popular à ciência e às universidades públicas com base em promessas frágeis pode resultar em uma queda abrupta. A opinião pública, ao se sentir enganada, não irá apenas responsabilizar a substância, mas também a própria instituição científica. A desilusão de famílias e pacientes pode se traduzir em combustível para o negacionismo e cortes de verbas. O discurso político pode rapidamente mudar de “precisamos financiar nossos heróis científicos” para “estamos desperdiçando recursos públicos em pesquisas sem resultados efetivos”.
Um Pacto Melhor com a Sociedade
A ciência opera por meio de experimentações, falhas e correções de rota. Um resultado negativo relativo à polilaminina não deve ser encarado como um fracasso; é o método científico funcionando adequadamente, separando o que é real do que é meramente um desejo de encontrar soluções para problemas sérios.
É preciso estabelecer um pacto mais maduro entre a ciência e a sociedade. O Brasil deve apoiar seus pesquisadores, laboratórios e universidades, não porque prometemos um milagre a cada semestre em resposta a vídeos nas redes sociais, mas porque um país sem uma base científica forte está fadado a um atraso crônico. Que possamos lutar pela ciência não apenas com promessas de resultados imediatos, mas com compromisso verdadeiro com o conhecimento e a educação.
Leandro R. Tessler é professor e pesquisador no Instituto de Física Gleb Wataghin (Unicamp).
