Análise do Programa Remessa Conforme
Um documento elaborado pela Diretoria Econômico-Financeira (Diefi) dos Correios destacou a fragilidade econômica da empresa após a implementação do programa “Remessa Conforme”. Segundo o relatório, essa iniciativa, que visa regularizar a cobrança de impostos sobre compras internacionais, revelou a falta de um reposicionamento estratégico adequado diante das mudanças no mercado.
Até agosto de 2024, os Correios mantinham uma participação significativa no segmento de encomendas internacionais, quase como um monopólio. Entretanto, o documento, assinado pela diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo, enfatiza que essa situação evidenciou a necessidade crítica de adaptação ao novo comportamento do consumidor. “A redução da participação no mercado internacional ressaltou a ausência de um reposicionamento negocial”, afirmou a diretora.
Impactos do Programa na Receita
Introduzido pelo Ministério da Fazenda em 2023, o programa Remessa Conforme impõe um imposto de 20% sobre todas as compras internacionais de até US$ 50, que anteriormente eram isentas para empresas. Essa medida ficou conhecida como a “taxa das blusinhas” e teve um impacto significativo nas receitas dos Correios. Um estudo realizado no início do ano indicou que a empresa enfrentou uma frustração de receita de cerca de R$ 2,2 bilhões após a implementação do programa.
Os dados referentes ao terceiro trimestre de 2025 revelam que a receita total dos Correios caiu para R$ 12,3 bilhões, uma redução de 12,7%, ou R$ 1,8 bilhão, em comparação ao mesmo período do ano anterior, quando a empresa havia registrado R$ 14,1 bilhões. Quando analisadas as receitas provenientes das postagens internacionais, especialmente afetadas pela nova política, a queda foi ainda mais alarmante: R$ 2 bilhões a menos, passando de R$ 3,2 bilhões nos nove primeiros meses de 2024 para apenas R$ 1,1 bilhão no mesmo período de 2025.
Queda no Volume de Encomendas
Outro aspecto preocupante destacado na análise dos Correios é a drástica redução no transporte de encomendas internacionais. Entre janeiro e setembro de 2025, a quantidade de objetos transportados caiu quase 110 milhões em comparação ao ano anterior. No total, foram 149 milhões de pacotes movimentados até setembro de 2024, enquanto no mesmo período de 2025 esse número despencou para apenas 41 milhões.
Esse fenômeno pode ser atribuído ao crescimento das compras realizadas através de marketplaces internacionais nos últimos anos. O que antes correspondia a cerca de 25% do faturamento da empresa, agora representa apenas 8,8%. Em julho de 2024, os Correios transportaram 21 milhões de pacotes, gerando uma receita de R$ 449 milhões. Em contraste, em setembro passado, a empresa viu esse número cair drasticamente, com apenas 3 milhões de encomendas e R$ 87 milhões em receita, o que representa a menor quantidade registrada nos últimos 23 meses.
Ciclo Vicioso de Prejuízos
A frustração nas receitas criou um que a diretora classificou como um “ciclo vicioso de prejuízos” que se arrasta nos últimos anos. “A baixa qualidade operacional resultou na perda de clientes e receitas, afetando a geração de caixa necessária para a regularização das obrigações dos Correios”, afirmou a diretora. A análise revela que a deterioração da performance operacional é o principal responsável pelos prejuízos recorrentes.
As negociações com grandes clientes, que representam mais de 50% da receita de vendas da empresa, se tornaram cada vez mais delicadas, comprometendo acordos e frustrando resultados esperados. Com essas dificuldades, o fluxo de caixa dos Correios foi severamente impactado, resultando em uma inadimplência de R$ 3,7 bilhões até setembro deste ano, comprometendo ainda mais a sustentabilidade financeira da estatal.
