Mobilizações pelo Combate ao Feminicídio
O Dia Internacional da Mulher, celebrado no último dia 8 de março, foi marcado por uma série de manifestações em várias cidades do Brasil. Diversos movimentos feministas, sindicatos e organizações da sociedade civil saíram às ruas para protestar contra o aumento da violência de gênero e cobrar ações efetivas do governo. Os atos ocorreram em capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Brasília, com foco no combate ao feminicídio, um tema que ainda gera grande preocupação no país.
Os números são alarmantes: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior índice da última década, representando um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde que a tipificação do crime foi implementada em 2015, mais de 13,7 mil mulheres foram assassinadas por questões de gênero. O estudo também revela que 62,6% das vítimas são mulheres negras e, na maioria dos casos, o agressor é um conhecido, frequentemente um parceiro ou ex-companheiro.
Atos Simbólicos e Homenagens
No Rio de Janeiro, um dos atos mais significativos ocorreu na Praia de Copacabana, especificamente na região do Posto 3. Logo nas primeiras horas da manhã, mulheres da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) fixaram cruzes na areia, trazendo o lema “Parem de nos matar”. Essa ação simbólica foi planejada para alertar a sociedade sobre o crescente índice de violência contra mulheres. Katia Branco, representante da CTB, enfatizou: “O 8 de Março é um dia para refletir, mas também para lutar. Fincamos essas cruzes no maior cartão postal do Brasil para conscientizar que o feminicídio precisa acabar”.
O ato contou com apresentações culturais e homenagens à vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada em 2018. Durante a manifestação, uma boneca gigante representando Marielle foi exibida, e sua filha, Luyara Franco, destacou a continuidade da luta da mãe. “Recentemente, tivemos a condenação dos mandantes do assassinato de Marielle. Isso mostra que a luta dela permanece viva e que precisamos seguir ocupando as ruas”, afirmou Luyara.
Demandas em São Paulo e Belo Horizonte
Em São Paulo, a Avenida Paulista foi palco de duas manifestações. Pela manhã, parlamentares e líderes políticos ressaltaram a importância da participação feminina na política e pediram medidas contra a violência de gênero. À tarde, movimentos feministas realizaram um novo protesto abordando pautas como o fim da jornada de trabalho de 6×1 e a ampliação do acesso ao aborto legal. O clima ficou tenso quando um grupo de homens provocou as manifestantes com palavras de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A Guarda Civil Metropolitana foi chamada e utilizou spray de pimenta para dispersar os provocadores.
Na Praça Raul Soares, em Belo Horizonte, centenas de ativistas se reuniram para denunciar o que foi descrito como uma “epidemia de feminicídios”. A ex-deputada federal Áurea Carolina participou do ato e enfatizou a necessidade de uma mudança cultural no Brasil: “São homens que não aceitam o ‘não’ de uma mulher. Precisamos construir um futuro em que ser mulher não seja uma condição de risco”.
Manifestação em Salvador e Brasília
Na Bahia, o ato em Salvador também atraiu movimentos feministas e organizações sociais. Convocado pelo Movimento 8M, teve como lema “Mulheres vivas, em luta e sem medo”. Além do combate ao feminicídio, as participantes clamaram por democracia, soberania nacional e melhores condições de trabalho para as mulheres.
Em Brasília, a mobilização reuniu sindicatos, coletivos feministas e movimentos sociais no Eixo Cultural Ibero-Americano, antigo complexo da Funarte. A marcha prosseguiu em direção ao Palácio do Buriti, enfatizando a necessidade de políticas públicas de proteção às mulheres e criticando a falta de investimentos na rede de atendimento às vítimas de violência.
Maria das Neves, presidente da União Brasileira de Mulheres no Distrito Federal (UBM-DF), declarou que o Brasil enfrenta uma situação emergencial diante do aumento dos assassinatos de mulheres: “Estamos nas ruas para afirmar que o Brasil vive uma calamidade pública. A cada 24 horas, quatro mulheres são assassinadas no país. Nosso grito é pela vida de meninas e mulheres”.
Novas Leis e Medidas Contra o Estupro
Em meio a essas mobilizações, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma nova lei que estabelece a presunção absoluta de vulnerabilidade da vítima de estupro de vulnerável. Essa medida visa impedir qualquer relativização e determina a aplicação das penas previstas para o crime.
A lei foi aprovada após a absolvição de um homem acusado de estuprar uma menina de 12 anos em Minas Gerais, caso que ganhou grande repercussão e resultou no afastamento do desembargador responsável pelo julgamento. Com a nova legislação, espera-se melhorar a proteção das vítimas e garantir que os culpados sejam mais rigorosamente punidos.
