Conexão entre Arte e Ciência
O Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) foi escolhido como sede do programa S+T+ARTS – Science, Technology and the Arts, uma iniciativa da Comissão Europeia que visa promover a colaboração entre arte, ciência e tecnologia para enfrentar os desafios ambientais e sociais atuais. Este projeto europeu parte da ideia de que artistas, cientistas e tecnologistas podem funcionar como agentes inovadores, trazendo novas perspectivas para questõescomplexas, que vão desde inteligência artificial até as mudanças climáticas.
A proposta do S+T+ARTS é promover residências artísticas em centros científicos e tecnológicos, unindo a investigação estética à pesquisa acadêmica e ao desenvolvimento tecnológico em um ecossistema de conhecimento integrado.
Iniciativa Sul-Americana: S+T+ARTS Buen-TEK
No contexto sul-americano, o programa se concretiza por meio do S+T+ARTS Buen-TEK, que propõe a referência do Buen Vivir, oriunda das cosmovisões da cultura indígena andina. Essa ideia busca entender a vida social, ecológica e espiritual como sistemas interdependentes que devem manter um equilíbrio entre sociedade e natureza. Além disso, a abordagem Lo-TEK, proposta por Julia Watson em seu livro “Lo-TEK: Design by Radical Indigenism”, destaca as tecnologias ecológicas desenvolvidas por comunidades tradicionais ao longo do tempo.
Essas referências orientam o programa na busca por um diálogo entre práticas artísticas, pesquisa científica e tecnologias contemporâneas, visando explorar inovações ambientais que sejam culturalmente situadas.
Residências Artísticas e Colaborações
O S+T+ARTS conta com a coordenação de um consórcio europeu que reúne instituições como IMPAKT (Holanda), Barcelona Supercomputing Center (Espanha), GLUON (Bélgica), HacTe (Espanha), Sony CSL – Rome (Itália) e TBA21 (Espanha). No total, o programa articula 11 residências em seis países da América do Sul, envolvendo centros científicos, universidades e organizações culturais.
No Brasil, destacam-se instituições como o Museu do Amanhã, a Universidade de Fortaleza, o Pivô Arte e Pesquisa e o Laboratório de Arte e Ciência Oceânica do IOUSP. A residência realizada no IOUSP foi chamada de “Instabilidades Costeiras”, ocorrendo na Base Oceanográfica Clarimundo de Jesus, em Ubatuba, com o objetivo de promover encontros entre artistas, cientistas e comunidades costeiras.
O Papel de Lícida Vidal na Residência
A artista escolhida para a residência foi Lícida Vidal, que investiga a intersecção entre arte, ecologia e tecnologias ambientais. Seu projeto, intitulado “Uma colher de sal e outra de açúcar”, propõe a criação de esculturas-ecossistema que funcionam como dispositivos bioremediadores. Essas estruturas, compostas de macroalgas e materiais adsorventes, são capazes de capturar poluentes presentes na água, servindo simultaneamente como instalações artísticas e locais de pesquisa científica.
Durante a residência, Lícida teve acesso a diversos contextos institucionais e científicos que lidam com a gestão e observação dos ecossistemas costeiros. As atividades incluíram visitas ao Parque Estadual da Ilha Anchieta, à Estação de Tratamento de Esgoto da SABESP em Ubatuba, ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Paraty e ao Laboratório de Sistemas Planctônicos do IOUSP, onde foram realizadas coletas oceanográficas e análises microscópicas.
Encontros e Conexões com a Comunidade
Além da residência da Lícida, a Base Oceanográfica de Ubatuba também foi palco de eventos vinculados ao programa The Ocean’s Edge, organizado em parceria com a Pivô Pesquisa e a Invisible Dust. O encontro reuniu artistas, cientistas e instituições ambientais para discutir novas abordagens artísticas sobre os ecossistemas marinhos.
Durante o programa, foram promovidas oficinas com a comunidade caiçara e workshops científicos sobre maricultura e cultivo sustentável de macroalgas, envolvendo profissionais como o maricultor Eusébio Higino de Oliveira. Essa imersão proporcionou uma rica troca de saberes entre os participantes, fortalecendo o diálogo entre arte e ciência.
A Importância das Práticas Artísticas
A experiência no Instituto Oceanográfico da USP, inserida no contexto da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, evidencia o papel das práticas artísticas na ampliação das investigações e da comunicação sobre os sistemas oceânicos. As iniciativas como o LACO situam o oceano como um espaço interdisciplinar onde ciência, cultura e responsabilidade ecológica se entrelaçam, contribuindo para a construção de futuros sustentáveis.
