Desafios e Conquistas na Ciência
São Paulo – Seis anos após o início da pandemia, a microbiologista e divulgadora científica Natália Pasternak se destacou na tarefa de explicar o método científico à população em busca de uma vacina contra a covid-19. Atualmente, Pasternak exerce suas funções como professora na Universidade de Columbia e é presidente do Instituto Questão de Ciência. Em uma conversa exclusiva com o VIVA, ela discute a relevância de integrar evidências científicas na formulação de políticas públicas e analisa as barreiras enfrentadas por mulheres na ciência, além da responsabilidade de pesquisadores e da mídia na comunicação de saúde.
“É preciso realmente ter com quem deixar os filhos, pois a igualdade no cuidado infantil ainda é um desafio. Isso impõe um fardo adicional às mulheres em suas carreiras,” ressalta Pasternak.
Os Principais Desafios para Pesquisadoras
VIVA: Quais são os maiores desafios que ainda persistem para uma pesquisadora hoje?
Natália Pasternak: Sem dúvida, devemos celebrar as conquistas das mulheres na ciência nas últimas décadas. Hoje, a entrada na carreira de pesquisa biomédica mostra uma divisão quase equilibrada entre homens e mulheres. Contudo, ao analisarmos a progressão nessa carreira, notamos que, à medida que avançamos, a participação feminina diminui nas posições de liderança. O primeiro obstáculo, portanto, reside na ascensão profissional.
VIVA: E quais são os principais obstáculos para alcançar cargos de liderança?
Natália Pasternak: Existem vários fatores que merecem destaque, como a maternidade e a falta de apoio social, incluindo o acesso a creches e uma divisão mais igualitária das responsabilidades domésticas. O cuidado com os filhos ainda é uma questão desigual, o que pesa sobre as mulheres em suas trajetórias profissionais.
Outro desafio é psicológico e emocional, relacionado às expectativas sociais sobre o comportamento feminino. Uma mulher em uma posição de liderança muitas vezes é vista como “agressiva” ou “histérica” quando se impõe, o que, embora sutil, pode ser extremamente prejudicial.
Mensagem para Jovens Cientistas
VIVA: Qual é a sua mensagem para as jovens mulheres que aspiram a uma carreira científica?
Natália Pasternak: Eu diria que nada é inalcançável. Meu conselho é manter os olhos abertos para identificar o machismo estrutural. Muitas vezes, não se trata apenas de buscar reparação formal, mas de denunciar socialmente. O machismo é uma parte intrínseca da sociedade, e nem sempre um comentário é feito com a intenção de ferir. Portanto, é essencial ter a coragem de conversar com os colegas sobre comportamentos inadequados e promover um ambiente de diálogo entre homens e mulheres na ciência.
A Ciência e as Políticas Públicas
VIVA: Sobre políticas públicas, qual é o desafio central da ciência na elaboração de leis?
Natália Pasternak: A ciência começou a ser reconhecida como uma ferramenta valiosa para decisões na esfera pública apenas recentemente. Isso é uma parte fundamental do que ensino no meu curso “Ciência para Políticas Públicas” na Universidade de Columbia. Precisamos fomentar um letramento cruzado: os cientistas devem entender os processos de políticas públicas e, por sua vez, os legisladores precisam estar familiarizados com a ciência para utilizar essas evidências de forma eficaz.
Essa troca de conhecimento é crucial, pois geralmente não faz parte da formação do cientista compreender as nuances das políticas públicas, assim como os legisladores não estão habituados a lidar com conceitos científicos.
A Responsabilidade na Divulgação Científica
VIVA: Recentemente, vimos uma expectativa em torno de novos tratamentos, como a polilamina. Qual é o papel do cientista e da mídia para evitar equívocos?
Natália Pasternak: Vários atores têm responsabilidades a desempenhar. Universidades e pesquisadores precisam conter a empolgação comercial e institucional. Embora seja natural querer que uma pesquisa traga resultados positivos, não se pode compartilhar informações com o público antes da devida avaliação e validação por especialistas. Caso contrário, corremos o risco de criar falsas esperanças.
A indústria farmacêutica, por sua vez, busca vender seus produtos, o que é legítimo, mas é vital que a mídia também atue com responsabilidade, avaliando as informações antes de divulgá-las e decidindo a melhor forma de apresentá-las.
Reflexões sobre a Divulgação Científica
Apesar dos desafios enfrentados na divulgação precoce, é possível extrair aprendizados. No caso recente, os mecanismos de controle falharam inicialmente, mas, em pouco tempo, a própria mídia passou a se regular, com jornalistas alertando sobre a necessidade de cautela na divulgação.
