Desigualdades Educacionais no Brasil
A concessão de bolsas para o ensino superior privado no Brasil teve um crescimento expressivo entre 2005 e 2019. Apesar disso, os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) revelam que as instituições privadas continuam apresentando desempenho superior às públicas. No município de São Carlos, as melhores médias estão concentradas em escolas particulares. Além disso, a infraestrutura das escolas no Brasil é desigual: as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste possuem índices mais altos em comparação às regiões Norte e Nordeste, e as escolas urbanas têm um desempenho superior às rurais.
Essas constatações emergiram de três projetos elaborados por alunos do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), no contexto da disciplina de Introdução à Ciência de Dados. Sob a orientação da professora Roseli Aparecida Francelin Romero, os alunos aplicaram métodos analíticos em grandes volumes de dados públicos, transformando informações em evidências concretas sobre a educação no país.
Explorando Dados do Enem
Fernando Valentim Torres e João Gabriel Pieroli da Silva, alunos do curso de Ciência da Computação, focaram na análise dos microdados do Enem de 2024, utilizando também dados de 2022 e 2023 para comparações históricas. João Gabriel, que ingressou na USP por meio do Enem, destacou a importância de explorar essa base de dados, que, apesar de ser pública, exige domínio técnico considerado desafiador. “A análise revelou disparidades significativas entre diferentes regiões e tipos de escola, além de uma correlação interessante entre a escolaridade dos pais e o desempenho dos alunos”, comentou João.
Os estudantes notaram que, apesar das expectativas, tanto a escolaridade do pai quanto da mãe tem um impacto semelhante no desempenho dos filhos. Outra descoberta surpreendente foi a predominância feminina entre os inscritos no Enem, que permanece crescente ano após ano.
Desempenho Escolar em São Carlos
Ao analisar dados específicos de São Carlos, Fernando e João perceberam que todas as 10 escolas com melhor desempenho da cidade eram particulares, localizadas em um bairro de classe média alta. “Isso indica que o acesso à educação de qualidade está restrito a uma porção limitada da população”, ressaltou Fernando. Comparativamente, as escolas de São Carlos têm um desempenho médio superior ao do estado de São Paulo, com destaque para as notas de redação, que ficam entre 57 e 61 pontos acima da média estadual.
Análise do Programa Prouni
Em outro projeto, os alunos Antônio Carlos de A. M. Neto e Matheus Paiva Angarola exploraram os dados do Programa Universidade para Todos (Prouni), que oferece bolsas de estudo em instituições privadas entre 2005 e 2019. Eles examinaram o perfil socioeconômico dos beneficiários, a distribuição geográfica das bolsas e as tendências de cursos oferecidos. Os resultados chamaram a atenção, pois, ao contrário do que esperavam, cursos da área da saúde não concentraram a maior parte das bolsas, enquanto Administração, Direito e Pedagogia se destacaram.
O estudo também enfatizou a inclusão racial, com uma representação significativa de estudantes pardos e pretos, embora ainda haja desafios a serem superados para garantir a equivalência com a composição racial da população de baixa renda. Matheus expressou a necessidade de dados mais detalhados para aprofundar a análise, o que poderia contribuir para uma investigação mais robusta sobre os critérios de concessão das bolsas.
Infraestrutura Escolar: Um Retrato do Brasil
Um trabalho adicional, feito por João Pedro Viguini Tolentino Taufner Correa e Pietra Gullo Salgado Chaves, focou na análise da infraestrutura das escolas brasileiras, utilizando microdados do Censo Escolar do Inep. Criando uma métrica para avaliar a infraestrutura escolar, que inclui a presença de bibliotecas, laboratórios e acesso à internet, os alunos identificaram padrões de desigualdade. “A análise das condições estruturais nos mostra um retrato real da sociedade brasileira, refletindo desigualdades que ainda persistem”, observou Pietra.
Embora tenham enfrentado dificuldades com dados faltantes e incoerentes, o estudo trouxe à luz as disparidades regionais e a vantagem das escolas urbanas em termos de infraestrutura.
