A Tensão entre Ciência e Território
No cenário árido do Raso da Catarina, onde araras-azuis-de-lear se destacam entre os paredões de arenito, a presença da Fundação Biodiversitas é um testemunho da luta pela preservação do que ainda resta da biodiversidade brasileira. O superintendente Jorge Velloso Vianna, ao compartilhar sua experiência com um grupo de jornalistas, mostra que sua abordagem vai além da linguagem técnica dos relatórios de sustentabilidade. Ele fala com a sabedoria de quem conhece profundamente o território e suas complexidades, refletindo sobre os desafios do financiamento e as contradições entre os ritmos da ciência e da política.
A Fundação Biodiversitas, criada em 1989, acumula mais de 30 anos dedicados à conservação da biodiversidade no Brasil, com projetos que se estendem pelo Cerrado, Mata Atlântica e, de maneira significativa, pela Caatinga. Neste último bioma, a fundação assume a coordenação da proteção da arara-azul-de-lear na Estação Biológica de Canudos. A parceria com a Seguros Unimed, que apoia a fundação desde 2019, simboliza a importância de acreditar em projetos de longo prazo, mesmo antes que os resultados se tornem visíveis. Esta aliança é crucial, pois o financiamento contínuo garante a manutenção de áreas como a Mata do Sossego e a Mata do Passarinho.
A Ciência como Base Estratégica
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Durante a conversa, Velloso enfatiza que a ciência possui um papel central na gestão da biodiversidade. Ele afirma que a Fundação Biodiversitas não apenas gera conhecimento, mas também transforma esses dados em diretrizes que influenciam políticas públicas e investimentos privados. Essa capacidade de traduzir conhecimento em ação é o que diferencia a fundação de outras instituições, permitindo que decisões informadas sejam tomadas em um cenário onde o tempo da natureza raramente se alinha com os ciclos políticos ou financeiros.
A transição da biodiversidade de um tema ambiental para uma variável econômica reconhecida é uma realidade que a Fundação já percebe. O Brasil está começando a entender a importância dessa questão, embora ainda haja um longo caminho a percorrer na implementação de mecanismos financeiros que valorizem os serviços ecossistêmicos. A experiência prática da fundação ilustra que proteger uma espécie muitas vezes implica em uma reconfiguração completa de paisagens ecológicas e sociais.
Desafios e Oportunidades na Conservação
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Entretanto, a abordagem fragmentada de conservação é insuficiente frente à crise climática atual. Velloso ressalta a necessidade de um manejo paisagístico que inclua as comunidades locais, promovendo uma conexão entre a conservação da arara-azul-de-lear e o desenvolvimento socioeconômico regional. Ele critica a falta de visão sistêmica que ainda permeia as discussões sobre conservação no Brasil, ressaltando que é preciso avançar de projetos isolados para a criação de corredores de conservação.
A sustentabilidade financeira das reservas e a atração de investidores são questões críticas para a Biodiversitas. Garantir que o custo da conservação seja percebido como um investimento na mitigação de riscos globais é um desafio que a fundação encara diariamente. Em um mundo onde a crise da biodiversidade se intensifica, a proteção de áreas remanescentes continua sendo uma prioridade, mesmo enquanto debates globais sobre regeneração se intensificam.
A Era da Gestão da Resiliência
Velloso reflete sobre a evolução de sua perspectiva ao longo das décadas. Ele acredita que o Brasil entrou em uma nova era, onde não se trata apenas de preservar o que ainda existe, mas de evitar perdas irreversíveis. Para isso, é essencial que ações de conservação sejam baseadas em conhecimento técnico e não em intuições. A educação ambiental e a responsabilização são fundamentais para que a sociedade e as instituições reconheçam o valor da biodiversidade.
Ao final de sua reflexão, Velloso elogia o papel de veículos como o Neo Mondo, que abordam a sustentabilidade com profundidade técnica, contribuindo para a democratização do conhecimento necessário para a conservação. Ele conclui ressaltando que proteger a biodiversidade no Brasil não é apenas uma questão científica, mas um desafio de governança, financiamento e decisão política. A trajetória da Biodiversitas, com sua resiliência em enfrentar ciclos econômicos e mudanças políticas, confirma que a ciência deve estar sempre ligada à institucionalidade, fundamental para garantir um futuro sustentável.
